120 anos depois, a escravidão ainda não acabou
A última terça-feira, 13/05, foi uma data com significado especial: há 120 anos a Princesa Isabel assinava a Lei Áurea, pela qual se abolia em definitivo a escravidão no Brasil. Mas será que isso realmente aconteceu?
Não mesmo! E estamos longe disso ainda. Enquanto a Reforma Agrária não se consolida, com cada trabalhador tendo seu pedaço de terra para plantar, trabalhar, produzir e gerar riquezas para nosso país, o Agronegócio patrocina a continuidade da escravidão no Brasil.Quer um exemplo bem pertinho de você?
Basta observarmos os imensos canaviais que cercam as cidades e os trabalhadores rurais que trabalham no corte da cana. Quando fazemos um paralelo entre os africanos trazidos forçadamente e mantidos escravos nas fazendas de Senhores de Engenho podemos muito bem ver nossos conhecidos, amigos, parentes, pais, irmãos ou filhos nas fazendas arrendadas ao plantio de cana, trabalhando debaixo de sol forte para os “Senhores de Engenho” modernos, ou seja, os usineiros.
Quer mais um dado? Pois saiba que uma pesquisa da professora Maria Aparecida de Moraes Silva, da UNESP, aponta que os cortadores de cana hoje têm vida útil de trabalho de apenas 15 anos, ou seja, é menor do que as dos escravos na época do Brasil-Colônia.Se os escravos ficavam confinados nas senzalas, por sua vez hoje, muitos cortadores de cana migrantes (aqueles de outras regiões do país, como o Nordeste, que vem para São Paulo trabalhar) ficam confinados em condições precárias de segurança e higiene, em barracos nas fazendas, cerca de oito meses por ano, período médio da safra.
Para não serem suspensos ou demitidos, são obrigados a atingir as metas que o Agronegócio exige, que é de cortar cerca de doze a quinze toneladas de cana por dia. Nos anos 80, a média de cana cortada diariamente era de oito toneladas por trabalhador. Se os escravos eram bem alimentados (não em qualidade, mas em quantidade) para que seus organismos suportassem o excessivo regime de trabalho, por outro lado os cortadores de cana ganham em média R$ 2,50 por tonelada cortada.
Fazendo as contas, o que ganham por mês é insuficiente para suas despesas e mal podem consumir o básico para sua subsistência e manter a família. Além do trabalho muito semelhante ao dos escravos, os cortadores de cana são vítimas de sudorese em conseqüência das altas temperaturas e do excessivo esforço e de dores causadas por câimbras. Sofrem de desgaste na coluna vertebral, tendinite nos braços e mãos (para cada tonelada cortada, desferem em média mil golpes de facão), de doenças nas vias respiratórias por causa da fuligem da cana, de deformações nos pés em decorrência do uso de “sapatões”, além de lesões nas cordas vocais por causa da postura curvada do pescoço na longa jornada de trabalho.
Entre 2004 e 2008 houve 21 mortes de cortadores de cana por um suposto excesso de esforço no trabalho apenas no Estado de São Paulo. E tem mais: de acordo com o Caderno “Conflitos no Campo 2007”, publicado pela Comissão Pastoral da Terra, em 2007 foram registrados 265 ocorrências de trabalho escravo no Brasil, número três vezes maior do que em 2006.
Dos 5.974 trabalhadores libertados em todo o país, 52% saíram das usinas do setor sucroalcooleiro.Não é por menos que o álcool brasileiro, ou “etanol”, só tem um preço competitivo no mercado internacional porque os trabalhadores da cana-de-açúcar ganham uma miséria e são submetidos a condições desumanas.Em 1888, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, mas nem todos conseguiram ler. A maioria dos trabalhadores no campo, e também nos canaviais, não sabem ler e nem escrever, mas conhece de cor e salteado o que significa escravidão.