Pastoral do Migrante - segunda-feira 8 de setembro de 2008
Comecei a sentir muita fraqueza neste mês e sem vontade de comer. Fui ao médico e ele me recitou complexo B12. Espero melhora, pois ainda faltam três meses e meio para terminar a safra.
Agora está assim na roça: um dia a gente fica na diária, outro dia corta cana só até meio dia porque dão pouca cana pra cortar... O trabalho está muito irregular e com isso não aumenta o valor de nosso pagamento.
Tenho visto muitos companheiros doentes; nos anos anteriores não era assim não. Aqueles que estão sem a família aqui sofrem muito e trabalham dobrado.
Esses dias cheguei a matar uma pequena onça no meio do canavial e meu colega matou uma garça que estava enroscada no meio da cana.
Quando a cana é tipo ‘velinha’ eu corto uns 500 metros; mas tem gente melhor que eu, que corta 700.
Muitos trabalhadores estão preocupados porque algumas usinas já colocaram muitas colheitadeiras e em plena safra estão dispensando os trabalhadores braçais. Estão dizendo que para 2009 não haverá mais cortador de cana e só vai ter emprego para aqueles que souberem operar as máquinas. Será mesmo?
Esse ano está sendo a pior safra da minha vida, trabalho muito e não ganho nada, e nós ainda temos que agüentar tudo calado se não eles mandam a gente embora.Teve alguns colegas meus que fizeram greve e foram demitidos por justa causa; disseram que eles eram vagabundos e que não queriam trabalhar. Do jeito que está não dá mesmo para trabalhar, a gente fica porque não tem outra escolha.
Nesse período de safra as usinas recebem cana dos fornecedores e dá menos cana pra gente cortar; e por isso chegamos cedo em casa.
Essa greve que teve em Pontal foi de muita violência. Fiquei assustado! Não entenderam ainda que o nosso trabalho é duro demais?