Ainda a cana - Opiniao de Lucília Maria S. Romão dra. da USP de Ribeirão Preto Actualité News Actualidad
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Gazeta de Riberao Preto - sexta-feira 8 de junho de 2007

Os bóias-frias/ quando tomam umas biritas/ espantando as tristezas/ sonham com bife a cavalo, batata frita/ e a sobremesa é goiabada cascão com muito queijo,/ depois café, cigarro e um beijo de uma mulata, canta a letra antiga a nos lembrar os sonhos tão básicos e cotidianos dos trabalhadores rurais: uma birita, uma comida com sobremesa, um cigarro e um chamego. Essa moldura romântica e ingênua de falar, de sonhos tão simplórios, ganha complexidade quando se observam os bóias-frias dos canaviais de todo o estado.

O estudo feito por Arlete Fonseca de Andrade, "Cana e crack: sintoma ou problema? Um estudo sobre os trabalhadores no corte de cana e o consumo de crack", traz contribuições para compreender o processo de esmagamento e expropriação dos trabalhadores rurais, levando-os a sonhar com outros consumos que não a goiabada cascão com muito queijo. Centrando a coleta de seus dados na região de Jaú, o presente estudo vai muito além de registrar apenas uma localidade, pois investiga a presença da economia canavieira desde a colonização do país, marcando o modo como a monocultura foi engolindo outras possibilidades de produção. Se desde os nossos primeiros passos de fundação como povo e economia, a cana esteve presente, parece natural que ela tenha hoje um lugar de familiaridade conosco, ou seja, uma atualidade fundamental garantida pelos sentidos já postos por discursos em outros contextos históricos. Apenas o nome desse processo poderia ser substituído: de especiaria para açúcar e, agora, para álcool como fonte energética sustentável. No entanto, é possível dizer que os nomes mudam para repetir o mesmo, visto que as relações de trabalho se alteraram para manter ou aprimorar a exploração. Matéria da Folha apontou que os escravos viviam melhor que os bóias-frias de hoje e trabalhavam em condições menos aviltantes, o que parece irônico pois indica que os vínculos escravagistas ainda estão atados ao campo e as formas de trabalho nele.

O estudo de Arlete aponta que a exploração capitalista da agricultura considerada moderna reinventa-se com uma saúde invejável, sustentando um imaginário de produtividade e arrancando do trabalhador não só a roça (visto que ele não teve acesso à terra), nem somente seu tempo, acelerado pelo ritmo da máquina, nem sua identidade cultural, tão diversa tendo em vista o fluxo de migrações, nem seus laços de parentesco ou identidade com a terra ou com o que produz. Arranca-lhe o próprio corpo e, nesse caso, o consumo de drogas é inserido como um anestésico necessário para continuar amanhã a fazer exatamente o que se fez hoje e ontem e antes de ontem e sempre. Nesse contexto, o crack sabota o efeito de limite, apaga o sinal de exaustão e escamoteia a sensação de fadiga, levando o trabalhador a uma alucinada e voraz aceleração dos seus movimentos, sem medida, sem norte, sem contenção.

Pra espantar as tristezas, consomem-se corpo e mente do trabalhador enquanto o preço do açúcar e álcool tem cotações favoráveis no mercado internacional e na agenda lulista. Pra sonhar com o ganho um pouco mais gordo, consome-se a vida de homens e mulheres, que nem mesmo têm a chance de escolher se é isso mesmo que querem ou precisam. Contando mentiras "pra poder suportar", os trabalhadores são inseridos em um processo de esforço sobrehumano, tomando pra si os sentidos de morte-em-vida.

Lucília Maria Sousa Romão é prof. dra. da Faculdade da USP de Ribeirão Preto