Aldeia no MS sofre ameaça de despejo de território Guarani-Kaiowá Actualidade News Actualidad
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Caros Amigos - mercredi 18 janvier 2012

Terra ocupada pela Laranjeira Nhanderu aguarda perícia da Funai para demarcação

 

Cercada por grandes plantações de soja e cana de açúcar, Laranjeira Nhanderu, aldeia indígena situada no município de Rio Brilhante, a 35 quilômetros de Dourados (MS), vem ocupando hoje um estreito território em meio à reivindicação de demarcação de 11 mil hectares de terra.

Após 87 anos distante de sua terra originária, a aldeia retomou seu território em 2007, mas está em litígio, aguardando a perícia técnica da Funai para dar continuidade ao processo de demarcação.

Na quarta-feira (18), entidades de direitos humanos e indígenas guarani-kaiowá lembraram dois meses do assassianto do líder guarani-kaiowá Nísio Gomes.

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Durante o Aty Gwassu, grande assembleia indígena realizada no dia 18 de janeiro na aldeia Arroyo Corá, no município de Paranhos, a 12 quilômetros da fronteira com o Paraguai, os indígenas reunidos receberam a notícia de que a aldeia de Laranjeira Nhanderu está ameaçada de despejo pela terceira vez desde a sua retomada. A informação foi transmitida por funcionários da Funai em Dourados, que tem reforçado a postura do órgão de apenas intermediar conflito entre indígenas e fazendeiros. Em entrevista, cacique Faride Mariano Lima, presente ao Aty Gwassu, comentou sobre a nova ordem judicial recebida por sua aldeia.

Guerra

Embora pouco noticiado pela mídia, o estado do Mato Grosso do Sul está em pleno conflito de terra, caracterizando uma verdadeira guerra silenciosa. De um lado os grandes latifundiários do agronegócio, de outro o povo Guarani Kaiowá que luta por demarcação de suas terras originárias.

Qual é a história da aldeia Laranjeira Nhanderu ?

Cacique Faride - No ano de 1920 o povo Kaiowá foi retirado a força pelo SPI (Serviço de Proteção ao Índio) e levado para áreas reservadas pelo governo com a finalidade de integrar o povo indígena à “civilização”. Em 2007 completaram-se 87 anos longe de nossas terras originárias, quando nós, povo Kaiowá de Laranjeira Nhanderu, nos organizamos e voltamos a retomar o nosso Tekoha (terra), passando a viver de acordo com os nossos costumes e saberes próprios. No entanto, quando voltamos para a nossa terra originária encontramos “estrangeiros”, pistoleiros que nos recepcionaram com tiros e armas de fogo matando nossas crianças, mulheres, caciques e líderes. Toda nossa terra estava devastada, tomada pela soja e pela cana. Mesmo sob ataque decidimos enfrentar ao invés de ficar em áreas de confinamento e abate do povo indígena Kaiowá.

Como se deu o processo de retomada das terras de Laranjeira Nhanderu ?

CF - No dia 13 de maio de 2011 voltamos novamente para nosso Tekoha Laranjeira Nhanderu, quando voltamos a construir nossas casas grandes que nos últimos despejos foram todas queimadas. Estamos muito preocupados com a nossa situação, pois fomos informados novamente que seremos despejados outra vez. Estamos socializando com todos Kaiowá e Guarani através do Aty Gwassu que estamos realizando através da Expedição Cacique Marco Veron, iniciada na terra indígena Takwara, em Juti (MS), onde o cacique Veron foi morto na luta pela terra tradicional Kaiowá. Nós, líderes de Laranjeira Nhanderu, estamos acompanhando a Expedição e firmando nossas alianças políticas Kaiowá e solicitando apoio de todas as lideranças e professores indígenas para que não se concretize o despejo anunciado. Nosso povo está desesperado, pois a ação do agronegócio está muito forte. Somos tratados como entulho, sendo jogados na beira das estradas.

Hoje a aldeia está ocupando um espaço limitado entre os 11 mil hectares de terra indígena reivindicada pelo povo Guarani Kaiowá, mas mesmo assim a aldeia está sofrendo uma nova ameaça. Por quantos despejos a aldeia Laranjeira Nhanderu já passou ?

CF – Desde o ano de 1920 foram incontáveis despejos promovidos pelo SPI e ataques de pistoleiros. Em 2007, após nossa retomada definitiva, fomos atacados várias vezes por pistoleiros. Também fomos despejados três vezes, levando nosso povo a ocupar beiras de estradas por um ano e sete meses, onde morreram atropelados cinco homens Kaiowá : Josué Cabreira, 19 anos ; Serbino Ortiz, 15 anos ; Josimar Cabreira, 16 anos ; Fantuir Barbosa Jorge, 8 anos ; Ademir Ilto, 22 anos. Na beira da estrada não temos tranquilidade, nem segurança. Não temos lenha para cozinhar e quando tem a água nos causa doença e diarreia. Um bebê de seis meses morreu contaminado por água envenenada. Além desses casos, da última vez que recebemos a notícia do despejo, meu sobrinho de 14 anos e outro jovem de 16, se suicidaram, pois não aguentaram ver suas casas serem incendiadas.

Marina D’Aquino é estudante de Jornalismo e acompanha a expedição de direitos humanos que analisa a situação dos povos indígenas no Mato Grosso do Sul