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Anistia Internacional - quinta-feira 29 de maio de 2008

Anistia Internacional critica o trabalho nos canaviais do Brasil

APRESENTADOR CARLOS NASCIMENTO: Dois pontos, pelo menos, são muito sensíveis na produção de álcool combustível pelo Brasil: o meio ambiente e as condições de trabalho dos cortadores de cana. A Anistia Internacional escolheu este segundo item para criticar o país.

REPÓRTER: As madeireiras e os produtores de suco de laranja foram criticados, mas nada comparado aos canaviais brasileiros. A Anistia Internacional denunciou o trabalho escravo no campo, um golpe para a indústria do etanol.

A organização reconhece a importância do biocombustível, mas diz que os abusos nos canaviais ferem leis de direitos humanos. E podem comprometer a credibilidade do Brasil no mercado internacional.

PORTA VOZ DA ANISTIA INTERNACIONAL/ TIM CAHIL (POR TELEFONE): Se o Brasil acredita usar o exemplo do etanol e da agroindústria como base do seu crescimento econômico neste momento, que isso seja feito de uma maneira responsável, ética, e não em cima da violação dos direitos humanos.

REPÓRTER: Logo agora que o Brasil está prestes a concorrer com agricultores na Europa. Na semana passada a Comissão Européia aprovou o fim dos subsídios no campo para a produção de etanol. O projeto ainda tem que ser votado pelos 27 países do bloco.

A União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), que representa 60% da produção nacional, divulgou nota dizendo que o relatório da Anistia Internacional é uma visão equivocada e fora de contexto e não representa a realidade do setor que emprega um milhão de trabalhadores. Para a Unica a Anistia se baseou em casos isolados de abusos no campo que ainda não foram julgados.

O relatório faz um balanço negativo dos 60 anos da Declaração dos Direitos Humanos incorporada pela ONU. Para a Anistia Internacional, as grandes potências do mundo e até mesmo o Brasil deveriam se desculpar pelos erros cometidos e voltar a dar o bom exemplo.

APRESENTADOR CARLOS NASCIMENTO: A Anistia Internacional não está totalmente errada. Em muitos lugares do Brasil as condições do corte de cana ainda deixam muito a desejar. Mas também é necessário dizer, como informou aí a Unica, que é a união dos usineiros, que as condições estão mudando. A mecanização está chegando às lavouras de cana. Agora, a pergunta que vem depois é a seguinte: quando a colheita da cana for mecanizada onde é que vão trabalhar aqueles que hoje estão nas lavouras, que devem, evidentemente, trabalhar com dignidade. Uma coisa não justifica a outra.

 
 
 

Jornal

29/05/2008
Anistia aponta exploração dos trabalhadores nos canaviais Relatório da Anistia critica "trabalho forçado" na cana Documento cita 288 trabalhadores resgatados em seis plantações de São Paulo

O governador fluminense, Sérgio Cabral Filho (PMDB), é criticado por sua "política draconiana e belicosa" e por ter abandonado promessas

PEDRO DIAS LEITE
DE LONDRES

A Anistia Internacional, organização que investiga a situação dos direitos humanos em 150 países, criticou a situação dos trabalhadores nas plantações de cana-de-açúcar no Brasil, que são "explorados e submetidos a trabalhos forçados".
A parte do Brasil no relatório anual da entidade, publicado ontem, ocupa quatro páginas e meia (entre 361) e destaca problemas conhecidos dos brasileiros: violência policial, Justiça ineficiente, violência e ameaças no campo e contra as populações indígenas e trabalho forçado e degradante em vários Estados.
Também não escapou da investigação da Anistia o caso da adolescente de 15 anos que ficou presa numa cela no Estado do Pará, em novembro do ano passado, onde foi "continuamente estuprada, alegadamente em troca de comida".
Foi a primeira vez que a Anistia chamou a atenção para o trabalho nos canaviais, que tem crescido com o boom dos biocombustíveis, mas ainda enfrenta condições precárias. Entre outros casos, o documento cita números do Ministério do Trabalho, de 288 pessoas vítimas de trabalho forçado resgatadas em seis plantações em março do ano passado em São Paulo, Estado mais rico do país.
Também ganhou destaque a situação de 409 trabalhadores, 150 deles indígenas, libertados de uma usina de etanol em Mato Grosso do Sul.
A crítica ao trabalho no campo ocupa espaço crescente, mas uma das principais questões de preocupação continua a ser a situação da segurança pública. O relatório diz que as comunidades carentes ficam "presas numa armadilha entre as gangues de criminosos e as práticas discriminatórias e violentas da polícia" e que "milhares foram vítimas" dessa violência, que "acentuou a exclusão".

Violência no Rio
A secretária-geral da Anistia Internacional, Irene Khan, disse anteontem que houve avanços do governo brasileiro no campo dos direitos humanos, mas que a situação da segurança pública no país continua "profundamente perturbadora", especialmente no Rio.
O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho (PMDB), é duramente criticado no relatório por sua "política draconiana e belicosa" e por ter "abandonado suas promessas iniciais", apesar de ser citado nominalmente.
Na Anistia há dez anos e responsável pela parte do Brasil nos relatórios há oito, o pesquisador Tim Cahill afirmou que "o dia-a-dia das pessoas continua exatamente o mesmo", apesar de avanços institucionais. Cahill já esteve no país neste ano para pesquisas e deve voltar para aprofundar o relatório do ano que vem. Segundo ele, a Anistia tem prestado atenção no conflito em Raposa/Serra do Sol e aprofundado as investigações nos canaviais.
Cahill defende que o Brasil não deveria se mobilizar apenas em casos de comoção nacional, como o do menino João Hélio, ou de repercussão internacional -como os denunciados pela própria Anistia.
Na lista de casos emblemáticos entregue aos jornalistas de dezenas de países que foram à divulgação do relatório anteontem em Londres, o Brasil é representado pela índia guarani-kaiowá Kuretê Lopes, assassinada com um tiro no peito aos 69 anos, em janeiro do ano passado, atingida por seguranças particulares durante uma desocupação do que os índios consideram suas "terras ancestrais".