Boias frias : OS ANTI-HERÓIS Actualité Actualidad
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Folha de Sao Paulo - domingo 24 de agosto de 2008

A Folha viaja ao interior de São Paulo, Estado mais rico do país, para conhecer o duro modo de vida dos cortadores de cana, base da indústria sucro-alcooleira Prevista para acabar em 2015, com o avanço da mecanização, profissão que data do Brasil Colônia ainda convive com a falta de segurança, baixa remuneração e trabalho escravo

Canavieiros: O submundo da cana

Pontualmente às 4h42, a canavieira Ilma Francisca de Souza parte para o trabalho com

sua marmita fornida de arroz coberto por uma lingüiça cortadinha. Em outro bairro de

Serrana, ainda antes de o sol nascer, Rosimira Lopes sai para o canavial levando arroz

com um só acompanhamento: feijão.

Durante o dia, elas vão dar conta da comida, que já terá esfriado. A despeito do notável

progresso que ergue usinas de etanol com tecnologia assombrosa, o Brasil segue sem

servir refeições quentes aos lavradores da cana-de-açúcar.

A bóia continua fria.

Durante dois meses, a Folha investigou as condições de vida e trabalho dos cortadores

de cana no Estado que detém 60% da produção do país que é o principal produtor do

planeta.

Gente como Ilma e Rosimira.

Em uma das etapas de apuração da reportagem, por 15 dias percorreram-se 3.810

quilômetros de carro, o equivalente a nove trajetos São Paulo-Rio de Janeiro. Um mapa

mostra onde ficam as cidades visitadas.

Pela primeira vez em cinco séculos, desde que as mudas pioneiras foram trazidas pelos

portugueses, em 2008 ao menos metade da cana de São Paulo não será colhida por

mãos, mas por máquinas. É o que anunciam os usineiros.

Como na virada do século 16 para o 17, quando o país era o líder do fabrico de açúcar, a

cana oferece imensas oportunidades ao Brasil, em torno do álcool combustível do qual ela

é matéria-prima. O etanol pode se transformar em commodity, com cotação no mercado

internacional. As usinas geram energia elétrica.

A riqueza do setor sucroalcooleiro, que movimentará neste ano R$ 40 bilhões, não atingiu

os lavradores. Em 1985, um cortador em São Paulo ganhava em média R$ 32,70 por dia

(valor atualizado). Em 2007, recebeu R$ 28,90. A remuneração caiu, mas as exigências

no trabalho aumentaram. Em 1985, o trabalhador cortava 5 toneladas diárias de cana. Na

safra atual, 9,3.

Em 19 cidades do interior -na capital foi ouvido um representante dos empresários- , os

repórteres procuraram entender por que, entre nove culturas agrícolas, a da cana reúne

os trabalhadores mais jovens.

Exige alto esforço físico uma atividade em que é preciso dar 3.792 golpes com o facão e

fazer 3.994 flexões de coluna para colher 11,5 toneladas no dia. Nos últimos anos, mortes

de canavieiros foram associadas ao excesso de trabalho.

Conta-se a seguir o caso de um bóia-fria que morreu semanas após colher 16,5

toneladas. Não há paralelo em qualquer região com tamanho rendimento.

Na estrada, flagraram-se ônibus deteriorados, ausência de equipamentos de segurança

no campo, moradias sem higiene e pagamento de salário inferior ao mínimo.

Conheceram-se comunidades de canavieiros que dependem do Bolsa Família, migrantes

que tentam a sorte e lavradores que querem se livrar do crack e de outras drogas.

Descobriram-se documentos que comprovam a existência de fraudes no peso da cana,

lesando os lavradores.

Escravidão

No auge e na decadência do ciclo da cana-de-açúcar, os escravos cuidaram da lavoura e

puseram os engenhos para funcionar. A arrancada do etanol brasileiro foi dada por

lavradores na maioria negros.

Assim como os escravos sumiram de certa historiografia, os cortadores são uma espécie

invisível nas publicações do setor. Exibem-se usinas high-tech, mas oculta-se a mão-deobra

da roça.

Impressiona na viagem ao mundo e ao submundo da cana a semelhança de símbolos da

lavoura atual com a era pré-Abolição. O fiscal das usinas é chamado de feitor.

Acumulam-se denúncias de trabalho escravo. É um erro supor que as acusações de

degradação passem longe do Estado mais rico do país e se limitem ao "Brasil profundo".

Uma delas é narrada adiante. Em São Paulo, localiza-se Ribeirão Preto, centro canavieiro

tratado como a nossa "Califórnia".

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem minimizado os relatos sobre trabalho penoso

nos canaviais. No ano passado, ele disse que os usineiros "estão virando heróis nacionais

e mundiais porque todo mundo está de olho no álcool".

O medo de retaliações é grande entre os canavieiros. Nenhum nome foi mudado nos

textos, mas algumas pessoas, a pedido, são identificadas apenas pelo prenome ou nem

isso. As entrevistas foram gravadas com consentimento.

São muitos esses anti-heróis: segundo os usineiros, há 335 mil cortadores de cana no

Brasil, incluindo os 135 mil de São Paulo. No Estado, prevê-se a extinção do corte manual

para 2015, junto com as queimadas que facilitam a colheita.

Ilma e Rosimira compõem uma espécie em extinção. Por meio milênio, os cortadores,

escravos ou assalariados, viveram tempos difíceis. Nos próximos anos, não será

diferente: com baixa qualificação, eles terão de procurar outros meios de sobrevivência.

Não há sindicato que não constate queda nas contratações.

O canavial não está tão longe quanto parece: ao encher o tanque com 49 litros de álcool,

consome-se uma tonelada de cana; quando se adoça com açúcar o café da manhã,

milhares de brasileiros já estão na lavoura de facão na mão.

A morte cansada

Com produção em alta e salários em queda, excesso de trabalho ronda canaviais

Se dinheiro chama dinheiro, como dizem, então pobreza chama pobreza -e tragédia

agoura tragédia. Procurada em Guariba para conversar sobre o marido, morto após

passar mal no canavial em 2005, Maildes de Araújo se põe a falar do morto de duas

semanas antes: o cunhado, também cortador de cana.

José Pindobeira Santos tinha 65 anos. Colheu cana até o ano retrasado. "Ele reclamava

da barriga, de cólicas", diz a filha Ivanir, faxineira. Voltava da lavoura com dor na virilha.

Nunca se tratou ou foi tratado.

Pindobeira morreu de obstrução intestinal e broncoaspiração. Não se sabe até que ponto

a lida na roça baqueou sua saúde. Nos anos 1960 já cortava cana nos arredores de

Guariba.

Seu concunhado Antonio Ribeiro Lopes, o marido da baiana Maildes, veio ao mundo em

julho de 1950, três dias antes do fracasso supremo do futebol pátrio, a final da Copa.

Migrou de Berilo (MG), município da paupérrima região do Vale do Jequitinhonha.

Em acidentes registrados -a subnotificação é considerável-, o facão rasgou-lhe perna e

joelho. Dores no ombro direito o afastaram da roça. Penava com dor de cabeça. O

empenho no trabalho desencadeava cãibras na barriga, nas pernas e nos braços.

Sofria da doença de Chagas, mas não o licenciaram.

Era funcionário da usina Moreno. Sucumbiu no campo e o levaram para o hospital. Causa

da morte: "cardiopatia chagásica descompensada".

Lopes integra a relação de duas dezenas de canavieiros mortos no interior paulista de

2004 a 2007, o caçula com 20 anos. A lista foi elaborada pela Pastoral do Migrante -há

mais mortes, não contabilizadas.

Dela não constam acidentes de trabalho -em 2005, de cada mil trabalhadores no cultivo

da cana, 48 sofreram acidente ocupacional, registraram as pesquisadoras da USP Márcia

Azanha Ferraz Dias de Moraes e Andrea R. Ferro.

Naquele ano, segundo o Ministério do Trabalho, morreram de acidentes 84 pessoas no

setor sucroalcooleiro, incluindo lavoura e indústria (3,1% das mortes por acidentes de

trabalho no Brasil). O Ministério Público do Trabalho investiga a razão dos óbitos e sua

associação com o caráter exaustivo do corte manual.

Relatório de 2006 da Secretaria de Inspeção do Ministério do Trabalho enumera dezenas

de irregularidades em empresas nas quais trabalhavam os lavradores que morreram.

Uma é o não-cumprimento do descanso de uma hora para o almoço. Os cortadores

comem em dez, 20 minutos, para logo empunhar de novo o facão. Eles ganham por

produção. Nenhum laudo atesta que a atividade foi decisiva para os óbitos. Seria difícil:

dos oito esquadrinhados pelo ministério, só em dois houve necropsia.

O texto da Secretaria de Inspeção afirma: "As causas de mal súbito, parada

cardiorrespiratória e AVC [acidente vascular cerebral], descritas nas certidões de óbito,

não são elementos de convicção que justifiquem a morte natural, como alegam as

empresas".

Há indícios sobre por que morrem os canavieiros.

Em 1985, os cortadores do Estado produziam em média 5 toneladas diárias de cana. Em

2008, são 9,3 toneladas, 86% a mais. Há 23 anos, um lavrador recebia R$ 6,55 por

tonelada e R$ 32,70 por jornada. Em 2007, 1.000 kg valeram R$ 3,29. A remuneração por

dia, R$ 28,90 (menos 12%).

A produtividade disparou e o salário caiu. Com a mecanização acelerada do corte e a

expansão do desemprego, ficam os mais eficientes. O homem compete com a

colheitadeira.

Os números de 1985 e 2007 são do Instituto de Economia Agrícola. Atualizados para

reais de agosto de 2007, encontram-se em artigo dos pesquisadores Rodolfo Hoffmann

(Unicamp) e Fabíola C.R. de Oliveira (USP).

"Penoso" e "desumano"

José Mário Gomes morreu em 2005 aos 44 anos. Era empregado da usina Santa Helena,

do grupo Cosan, líder da produção de cana no planeta. "O óbito ocorreu nos períodos de

maior produtividade, com picos alternados", informa o Ministério do Trabalho.

Valdecy de Lima trabalhava na usina Moreno, como Antonio Ribeiro Lopes. Em 7 de julho

de 2005, desabou na roça. Morreu aos 38 anos, de acidente vascular cerebral. Em 17 de

junho, decepara 16,5 toneladas.

A Moreno alega que as mortes de Antonio e Valdecy "não ocorreram em decorrência do

esforço do trabalho". A Cosan diz que as causas do óbito de José Mário "ainda estão

sendo investigadas pelos órgãos competentes. A empresa prestou todos os atendimentos

necessários e colocou seu departamento de serviço social à disposição da família do

colaborador. A Cosan cumpre rigorosamente a legislação trabalhista".

O Ministério Público do Trabalho relaciona as mortes à rotina "penosa" e "desumana" e

prepara ação contra o pagamento por produção, quando o grosso da remuneração

depende do desempenho. É preciso acumular em oito meses, a duração da safra, o

suficiente para 12 -a maioria é dispensada na entressafra. Usineiros e segmento

expressivo dos trabalhadores desejam manter o sistema.

O afinco para cortar mais e mais provoca situações como uma acontecida em 2007. Sob

o sol, em dia de temperatura máxima de 37ºC à sombra, nove trabalhadores foram

hospitalizados após se sentirem mal em uma fazenda de Ibirarema.

Reclamavam de cãibras e vomitavam. Algumas usinas fornecem no campo bebidas

reidratantes para a mão-de-obra suportar o desgaste.

Em áreas de corte manual, os canaviais costumam ser queimados antes da colheita. O

fogo queima a palha da cana, e restam apenas as varas, o que facilita o trabalho.

Quando o facão golpeia as varas com fuligem, o pó se espalha, entra pelo nariz e gruda

na pele. A plantação recebe agrotóxicos. O lavrador não costuma receber máscara.

Em tese de doutorado na Unesp, a bióloga Rosa Bosso constatou que o nível de HPAs,

substâncias cancerígenas, expelidos na urina de quatro dezenas de trabalhadores era

nove vezes maior na safra do que na entressafra.

Em temporada sem colheita, Antonio Lopes sobreviveu como carregador de sacas de

açúcar. Maildes o conheceu na lavoura da cana, onde o namoro engatou. Ainda hoje a

viúva se orgulha: "Ele não era de enjeitar serviço".

Filhos da cesta básica: Estudos divergem quanto ao aumento do IDH em

regiões canavieiras

Maria Vanilda Sabino diz que a filha Vitória tem uma boneca. A menina de quatro anos,

porém, não sabe onde ela está.

Maria mora com o marido nos fundos de uma casa. Cortador de cana, com carteira

assinada por usina, Antônio é analfabeto como a mulher.

Com o casal dormem três filhas no quarto. Na cozinha, diante do fogão, dois filhos. Não

há geladeira. O terceiro cômodo é um banheiro. Os três rebentos maiores estão no

Nordeste -são oito no total.

A alagoana Maria chegou a Serrana no ano passado. O peso de duas meninas caiu para

o nível de desnutrição. Engordaram graças a leite e cesta básica doados pela prefeitura.

Em junho, como sempre, Maria recebeu R$ 112 do Bolsa Família.

Em mês recente, Antônio ganhou R$ 487 líquidos. Só de aluguel se foram R$ 140. Sua

renda é a única do lar.

Artigo inédito dos economistas Francisco Alves (UFSCar) e Marcelo Paixão (UFRJ)

analisou 71 municípios paulistas que tinham mais de 40% de superfície total ocupada com

cana na década de 1990.

Concluiu que nessas cidades a renda é maior, porém apenas sete alcançavam em 2000

IDH (Índice de Desenvolvimento Humano, que contempla também saúde e educação)

maior que a média do Estado. Só 13 superavam o IDH médio de suas microrregiões. E

em 43 a desigualdade ultrapassava a das microrregiões.

Também com base em dados do IBGE de 2000, os professores da USP Alceu Salles

Camargo Júnior e Rudinei Toneto Júnior chegaram a constatações opostas.

Pesquisa da dupla sustenta que os municípios com pelo menos 28,8% de cana-de-açúcar

plantada, no conjunto da área da lavoura (não da superfície total), têm IDH maior que os

sem esse perfil agrícola.

Em sentido contrário, estudo do presidente do Ipea, Marcio Pochmann, afirma que 81%

das famílias dos trabalhadores do setor sucroalcooleiro de SP (agricultura e indústria)

tiveram em 2005 rendimento de até dois mínimos.

"É o público do Bolsa Família, de renda equivalente", diz Pochmann.

Crack, cachaça e maconha mascaram esforço e dor

O primeiro fumava maconha na colheita da cana porque "ficava com o corpo mais leve.

Dava vontade de trabalhar". O segundo escondia cachaça em sua mochila. "Quanto mais

eu bebia, mais tinha energia. Eu me sentia forte."

O terceiro "ia embora" com maconha ou crack, subproduto barato da cocaína ainda mais

destrutivo e capaz de criar dependência. "Quando usava, ninguém me segurava. Cortei

21 toneladas em um dia."

Na Casa do Caminho, um centro de recuperação de dependentes químicos em Barrinha,

na maioria trabalhadores do cultivo da cana, eles tentam voltar à tona.

O primeiro trocou a maconha pelo crack. "Na roça, vinha a sensação de ser perseguido,

eu ficava com medo, via revólver, dava vontade de atirar em mim mesmo. Não trabalhava.

Comecei a perder o serviço."

O segundo foi do fermentado de cana-de-açúcar para o crack. Se fumava a droga,

misturada com fumo, faltava ao trabalho. "No crack, o fim é o cemitério, uma cadeira de

rodas ou a cadeia." O terceiro "ficava louco e continuava trabalhando. Viajava no serviço.

Gritava e zoava a cabeça dos meninos. Cantava reggae". Seu plano para quando sair:

cortar cana.

Não se conhecem estatísticas de consumo de drogas ilícitas nos canaviais ou o índice

específico de internação de cortadores. O fato novo é a disseminação no interior de São

Paulo de clínicas de recuperação de trabalhadores da cana. Contam-se ao menos dez.

Os depoimentos dos lavradores associam o consumo de drogas à impressão inicial de

superação dos limites físicos. Na largada, elas parecem ajudar. Depois, debilitam.

A Casa do Caminho abriga 40 internos. Seu presidente, Arnaldo Garcia, afirma que as

fontes de financiamento são diversas. As usinas contribuem com açúcar e lenha.

Operário-padrão

Após começar a trabalhar aos 13 anos, ex-campeão de corte está hoje, aos 35, com uma

hérnia e a coluna "travada"

Valdecir da Silva Reis, o graveto que consome seus dias deitado na cama a ver TV, já foi

um campeão. Não tinha para ninguém. Na lavoura, batia recorde em cima de recorde.

Em 20 de março de 2006, colheu 21 toneladas. Em 17 de maio, 28. Oito dias depois,

rasgou 560 metros lineares de plantação, cortando cinco linhas de cana para receber por

uma -é o critério legal. A rigor, derrubou 2,8 km lineares.

O contracheque da empresa Meia Lua imprime a marca da jornada: 52,47 toneladas.

Quase uma tonelada por quilo de gente -ele pesava 56 kg. Hoje diz ter 49 kg. Parece

menos.

O cortador que arrancava suspiros dos colegas incrédulos definha na casa onde vive de

favor em Engenheiro Coelho.

Na roça, não sentia dores. Em 2006, a coluna "travou" e ele não retornou ao canavial. Aos

35 anos, sonha com o dia de voltar ao trabalho em que se tornou o herói dos amigos.

Por maior que seja a vontade, ele desconfia de que não empunhará o facão novamente.

Os exames diagnosticaram problemas na coluna lombar, hérnia de esôfago e

desequilíbrios nos indicadores de urina.

Valdecir se queixa de dores de cabeça, na barriga, no peito (não fez avaliação cardíaca),

no saco escrotal, no ombro direito, nos braços, joelhos e pernas; de falta de força para

levantar uma garrafa d'água; de cansaço após caminhar 800 metros; de ouvir mal por um

ouvido.

O lado esquerdo do tórax é mais desenvolvido; com o braço esquerdo ele atirava a cana

na leira, o corredor aberto na terra onde fica a cana colhida.

Segunda divisão

Ainda que o farrapo humano que fala baixinho e sem fôlego sobre seu infortúnio fosse

criação de um magistral ator stanislavskiano, ultra-realista, nem assim seria possível bolar

uma história com princípio, meio e fim como a dele -os repórteres escarafuncharam o

caso com base em fartura de documentos e depoimentos.

Valdecir começou a cortar cana aos 13 anos. Empresas premiavam seus feitos com

bicicleta e aparelho de som.

Após "travar" em 2006, obteve auxílio-doença da Previdência. Na perícia de 5 de maio

passado, no entanto, foi considerado apto para o trabalho. Sua renda é zero.

Mora com uma filha de casamento anterior e a mulher, Helena. Ela ganha R$ 30 por

faxina. Faz duas por semana.

O trabalho para o qual o INSS não identifica "problema grave" para Valdecir exercer "não

se pode comparar ao de um escriturário", diz um executivo de usina. Anunciam-se vagas

para escriturário com 30 a 40 horas de carga semanal. Em período idêntico, o cortador de

cana em SP trabalha, no papel, 44 horas, em seis dias.

De escriturários e cortadores se exigem 35 anos de serviço para se aposentar. A maioria

desses, contudo, é safrista: trabalha oito meses por ano na atividade. Não soma 12

meses de contribuição.

O desempenho de alguns é tão exuberante que os célebres campeões cubanos das

campanhas de corte de cana aqui pegariam segunda divisão. Em 1965, Fidel Castro

condecorou cinco deles, de marcas de 14 a 19,7 toneladas. Na Meia Lua, exempregadora

de Valdecir, um cortador bateu 35 toneladas em 20 de junho. Os repórteres

tentaram falar com a empresa, mas não encontraram seus endereço e telefone.

Os campeões, como são chamados na lavoura os de melhor performance, costumam ser

magros e fortes. Valdecir tem 1,65 m de altura.

Samuel Gomes, 38, é um dos recordistas de Guariba. Mede 1,85 m. Barack Obama, 1,86

m. O peso do senador americano é estimado em 77 kg a 82 kg. Samuel, que tem 68 kg,

conta ter cortado neste ano 27 toneladas em um dia na usina São Carlos.

Com tanta exigência física, há nove homens (92%) por mulher na lavoura canavieira do

Brasil. Em nove culturas relevantes, os trabalhadores de menor média etária são os da

cana, 35,5 anos -dados compilados pelos pesquisadores Rodolfo Hoffmann (Unicamp) e

Fabíola C.R. Oliveira (USP).

Rotina

Ônibus das empresas apanham os cortadores em casa entre 5h e 6h. No campo, a

jornada inicia às 7h. Muitos "almoçam" antes de começar a colheita. Há direito a

intervalos de dez minutos, de manhã e à tarde. Pelas 10h ou 11h, reserva-se uma hora

para almoço -poucos cumprem todo o tempo. O serviço termina às 15h ou 16h, mas há

excessos. Os trabalhadores chegam às suas casas entre as 17h e as 19h. Dormem pelas

20h, 21h, para acordar entre as 3h30 e as 4h30.

Pesquisa de análise ergonômica em fase de conclusão, financiada pela Fapesp e

coordenada pelos pesquisadores Rodolfo Vilela e Erivelton de Laat, descreve os

movimentos dos cortadores.

Um deles, que colheu 11,5 toneladas, deu em um dia 3.792 golpes com o facão e fez

3.994 flexões de coluna. O facão pesa 600 gramas. Golpeia-se a cana no pé, onde se

concentra a sacarose. O cortador destro abraça o feixe de cerca de dez canas com o

braço esquerdo (ou, vara por vara, com a mão), curva-se e golpeia com o braço direito.

Com o esquerdo, atira a cana na leira, de onde a máquina carregadeira a leva.

Em um grupo, a freqüência cardíaca média em repouso era de 57,4 batimentos por

minuto. No trabalho, de 112, variação exagerada, conforme os pesquisadores (a diferença

deveria se limitar a 35).

A atividade dos lavradores é comparada à de maratonistas, com repetição fatigante de

movimentos. Maria Zeferina Baldaia, campeã da Maratona de São Paulo em 2008, foi

cortadora de cana no interior. "Uma coisa tem muito a ver com a outra", confirma.

Sindicatos de empregados pedem a redução da carga semanal para 40 horas, com dois

dias de descanso. Cristina Gonzaga, pesquisadora da Fundacentro, fundação de

pesquisas do Ministério do Trabalho, defende 30 horas, com cinco jornadas de seis horas

por semana.

As empresas rejeitam as reivindicações.

É essa vida que Valdecir fantasia retomar. Ele se esconde em casa. "As pessoas vêem a

gente na rua e falam que é vagabundo. Não vêem o que a gente tem por dentro, o que a

gente sente."

Salário no olhômetro

O trabalho na colheita da cana-de-açúcar vale quanto pesa a cana cortada. Pelo menos

deveria valer.

Documentos obtidos em duas regiões de São Paulo indicam que uma desconfiança

atávica dos trabalhadores não se trata de paranóia: fraudes -ou erros- provocam o

pagamento abaixo do previsto nos acordos com as empresas.

A remuneração dos cortadores é uma equação complicada mesmo para quem tem

formação superior. Para a esmagadora maioria dos lavradores, é ainda pior: na média,

eles não completaram nem a quarta série do ensino fundamental.

Anualmente, empresários e sindicatos de assalariados definem quanto vale a tonelada

colhida. As cifras variam de acordo com o tipo da cana.

Embora o pagamento seja por peso, o desempenho dos cortadores é aferido por

distância. Usinas e fornecedores de cana fixam o peso existente por metro colhido. O

peso depende de altura, espessura e outras características da cana.

Multiplicam-se os metros colhidos pelo peso de 1 metro. O resultado é o peso da cana

cortada. Este é multiplicado pelo valor da tonelada, determinando o ganho do dia.

Às vezes as contas não fecham. O trabalhador rural Adelfo da Costa Machado cortou 132

metros lineares de cana na quinta-feira 12 de junho.

A Indústria e Comércio Iracema Ltda., proprietária da destilaria Iracema, de Itaí (SP),

pagou-lhe R$ 0,20 por metro. A jornada deu direito a R$ 26,40.

Daquele tipo de cana, uma tonelada valia R$ 2,7462.

Os demonstrativos da balança da Iracema revelam que na roça onde Machado trabalhou

o rendimento por hectare foi de 138 toneladas. O desembolso pela mão-de-obra seria de

R$ 379 por hectare (área pouco menor que o campo de futebol de dimensões máximas).

Com o espaçamento de 1,4 metro entre as fileiras de cana (ruas, como se diz na lavoura

paulista), em um hectare há 7.140 metros lineares plantados. O lavrador tem de cortar um

metro de cinco ruas -5 metros, portanto- para que se compute um metro na sua produção.

Cada cortador deveria receber R$ 0,2653 por metro -33% a mais do que foi pago. Em vez

de R$ 26,40, Adelfo Machado tinha direito a R$ 35,02 pelas 12,8 toneladas que abateu.

Deu para entender?

Imagine os cortadores.

Para fazer o cálculo, precisou-se cotejar a "planilha de ponto de produção", preenchida no

canavial por um fiscal da empresa, com o contracheque do empregado e um documento

da firma assinalando as toneladas por hectare.

Foi o procurador do Trabalho José Fernando Maturana, de Bauru, quem garimpou e

cruzou as informações.

Em um documento co-assinado com o procurador, um funcionário da Iracema reconheceu

que no "talhão 35" o rendimento foi de 138 toneladas por hectare. Talhão é uma

subdivisão, de dimensões diversas, da área do canavial.

Na terça, outro executivo da Iracema afirmou que estava errada a tabela da empresa. Por

engano, computaram-se 138 toneladas, mas "a produção por hectare foi menor". Os

trabalhadores teriam recebido corretamente.

Instrumento primitivo

Ao contrário do vendedor consciente dos sapatos que vendeu, o lavrador ignora as

toneladas que colheu. Com a balança nas usinas, longe da roça, ele só sabe depois. Na

lavoura, o terreno cortado é medido por um instrumento primitivo: um compasso de

madeira, com pontas de ferro e raio de 2 metros. O fiscal caminha girando o compasso

gigante.

"Enquanto as usinas utilizam modernos sistemas de monitoramento por GPS para

projetar a colheita, os trabalhadores são remunerados no "olhômetro", acusa o Ministério

Público do Trabalho.

Indagado sobre as toneladas que corta e o valor do metro, um canavieiro respondeu, em

Pederneiras, como os colegas: "Não sei".

Nas greves de 1984 a 86, os cortadores reivindicaram sem sucesso o pagamento por

metro, e não por peso. "O trabalhador sempre foi roubado", acusa José de Fátima Soares,

líder das antigas mobilizações em Guariba. Zé de Fátima aderiu ao petismo e ao

trotskismo e trocou-os pelo malufismo. Hoje é do PPS.

O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cosmópolis acionou o Ministério do Trabalho

em 2005. Com base em anotações da performance em metros no canavial e da pesagem

nas usinas, descortinaram-se diferenças entre cana colhida e pesada. Em 4 de agosto

daquele ano, a empresa A.P. de Freitas Neto fixou a relação de 30 kg por metro. A cana

se destinava à usina São José. Na balança, o metro pulou para 49 kg.

Em 1998, greve em Cosmópolis conquistou um sistema pioneiro para conferir a produção:

na usina de Cosmópolis, a Ester, três funcionários do sindicato se revezam 24 horas na

sala de operação da balança.

Eles monitoram, caminhão por caminhão, as toneladas que os computadores da empresa

registram.

O controle da produção, com sindicalistas conferindo o peso, só existe lá. Nas grandes

usinas, o método é o do caminhão-campeão. Selecionam-se três amostras do canavial,

pesa-se e define-se o valor do metro. O cortador não testemunha a pesagem. Certas

empresas nem esse recurso empregam.

"Por que, no Brasil, só uma usina faz o controle da produção?", pergunta Carlita da Costa,

presidente do sindicato de Cosmópolis. "Para mim, há fraudes [em outras usinas]."

A União da Indústria de Cana-de-Açúcar afirma que há um esforço com a Federação dos

Empregados Rurais Assalariados de SP para assegurar "transparência e confiabilidade" e

"apurar se aquilo que se está produzindo se está recebendo". Patrões e empregados não

sabem de punição criminal por manipulação de peso. A usina São José foi procurada,

mas não se pronunciou. A Freitas Neto não foi encontrada.

O contador Fábio Urrea, contratador de mão-de-obra, disse em Agudos que, "se o cara

for sério", é difícil fraudar o peso. "E existe quem não seja sério nesse meio?", ouviu dos

repórteres. Urrea sorriu: "É duro falar. Complicado".

Terceirização freia aplicação de medidas de segurança

A edição de março de 2007 do jornal "Contato", da usina Nova América, divulgou suas

operações na lavoura, por meio da Nova América Agrícola: "Hoje 100% do plantio

manual, incluindo os terceiros, já conta com o cinto de segurança". No mesmo mês, uma

blitz do Grupo Móvel de Fiscalização Rural visitou uma fazenda em Maracaí (SP).

Flagrou funcionários da Nova América em cima de um caminhão, a mais de 2 metros de

altura, jogando cana para ser plantada por quem seguia no chão.

O pessoal sobre o veículo não usava cinto. A empresa comprometeu-se a assegurar

equipamento a todos.

A realidade da roça nem sempre corresponde 100% à propaganda das usinas de etanol.

No mês passado, o presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar, Marcos Jank,

participou da Mesa de Diálogo com governo e sindicalistas para tratar do trabalho na

cana.

Jank afirmou, segundo a Agência Brasil: "Já 100% das usinas não estão terceirizando o

corte da cana, mas ainda há problemas nos fornecedores de cana em São Paulo". Três

semanas depois, o procurador do Trabalho Silvio Beltramelli Neto acusou a usina Santo

Antônio de terceirizar ilegalmente a produção de cana.

A Justiça determinou em liminar que a usina "abstenha-se de contratar terceiros". A Santo

Antônio diz "não ter trabalhadores terceirizados".

A Cooperativa dos Plantadores de Cana da Zona de Guariba promoveu campanha com

seus funcionários para prevenir câncer. No canavial, quase 100% dos cortadores não

recebem protetor solar para evitar o câncer de pele.

Riqueza e senzala

Estado mais rico do país tem casos de trabalho escravo; procurador fala em "apartheid"

nos canaviais

Quando os fiscais do Ministério do Trabalho e os procuradores do Ministério Público do

Trabalho partem para diligências nos canaviais, as chances de encontrarem

irregularidades equivalem às dos clientes dos serviços de "pesque-pague" disseminados

pelo interior paulista fisgarem tilápias sem dificuldades: nos lagos, há profusão de

cardumes; no campo, as condições de trabalho dos cortadores estão longe de cumprir

plenamente a lei.

Mesmo sem os instrumentos legais de investigação à disposição dos servidores públicos,

os repórteres não passaram por lavoura onde não houvesse infrações.

Em Taiaçu, os trabalhadores saíram para a roça de madrugada, em ônibus com luzes

dianteiras e traseiras queimadas.

Em Serra Azul, não havia água gelada, banheiros móveis, área coberta para as refeições

e muitos canavieiros não usavam alguns EPIs (equipamentos de proteção individual).

Em Pederneiras, uma lavradora estava com luva cirúrgica de borracha, não de couro com

reforço metálico, como determina a norma de segurança.

Ela pegou as luvas emprestadas com uma amiga que atuou como mata-mosquito na

campanha de combate à dengue.

Uma das luvas foi cortada pelo facão na véspera, ferindo um dedo (o acidente não foi

registrado, o que contraria a legislação). As botinas com bicos metálicos de boa parte dos

peões estavam destruídas.

Em Limeira, também não se viram alguns EPIs. Idem em Piracicaba e Charqueada. Em

Dois Córregos e Guariba, cortadores vivem em pardieiros sem conforto e limpeza -falta

até papel higiênico.

Em Agudos, em uma rescisão contratual, um casal apresentou os contracheques

comprovando remuneração inferior a um salário mínimo mensal. Marido e mulher ainda

deviam mais de R$ 100 cada um ao contratador de mão-de-obra, que retinha documentos

dos funcionários havia três meses.

Hoje são proibidos e ficaram mesmo para trás os caminhões que transportavam os bóiasfrias

da cana em São Paulo. Mas perduram frotas de ônibus deteriorados e inseguros,

sem autorização para rodar.

As empresas são obrigadas a fornecer de graça equipamentos de segurança. Às vezes

não fornecem e às vezes cobram.

São pequenos inconvenientes, se comparados aos episódios de "redução a condição

análoga à de escravo".

O crime é tipificado pelo Código Penal. Ocorre quando se submete alguém a "trabalhos

forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho,

quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o

empregador ou preposto". A pena é de multa e reclusão de dois a oito anos, além de

sanção correspondente à violência.

Resgates e libertações

Desde 1995, quando entrou em ação, o Grupo Especial de Fiscalização Móvel do

Ministério do Trabalho "resgatou" -é o verbo oficialmente empregado- 30.036

trabalhadores no Brasil. As indenizações somam R$ 42 milhões. São raras as

condenações judiciais.

O recorde foi batido no ano passado, com 5.999 "libertações", outra expressão adotada

pelo governo. Neste ano, até junho, 2.269 pessoas foram encontradas em condições

análogas à de escravo.

Fiscais e procuradores se transformaram em uma espécie de caçadores de escravos ao

contrário -não para confiná-los, mas para livrá-los da desgraça. Em São Paulo, é comum

eles exigirem que empresas paguem a viagem de volta de migrantes contratados em seus

Estados para o corte de cana.

A maioria -3.117- dos libertados em 2007 no país trabalhava no setor sucroalcooleiro,

como a Folha informou em fevereiro passado.

Em Brasilândia (MS), na usina e na fazenda da Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool,

831 empregados indígenas foram descobertos em situação qualificada como degradante.

Neste ano, 55 funcionários de outra usina da CBAA foram descritos pelo Ministério do

Trabalho como vítimas de servidão por dívida, o que configura trabalho escravo.

Ao contrário da maioria das autuações, concentradas nas regiões de expansão da

fronteira agrícola no Norte e no Centro-Oeste do Brasil, esta aconteceu no Estado de São

Paulo, em Icém.

A companhia, do grupo J. Pessoa, nega responsabilidade por problemas. Em seu site,

afirma que "busca garantir sustentabilidade na produção e relações responsáveis no

crescimento, visando sempre a melhoria e a qualidade de vida dos seus colaboradores e

de seus familiares".

Empresas do grupo foram excluídas do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho

Escravo, um programa de organizações que se comprometem a não aceitar esse crime

em sua cadeia produtiva.

O procurador do Trabalho Luís Henrique Rafael destacou em ação civil pública o que

considera abismo entre os componentes contemporâneos e arcaicos do negócio da cana

e seus derivados: "A tecnologia de ponta que se observa nas usinas contrasta com as

"senzalas" nos canaviais, explicitando bem o verdadeiro apartheid, fruto da inescrupulosa

equação de distribuição das rendas geradas pelo tal "petróleo verde'".

A Organização Internacional do Trabalho mantém no Brasil o Projeto de Combate ao

Trabalho Escravo.

O procurador Mário Antônio Gomes coordena "inquérito-mãe" sobre o que chama de

degradação do trabalho nos canaviais de São Paulo. Para ele, "o nível de educação mais

baixo [dos cortadores] facilita a exploração".

O combate ao trabalho degradante é limitado pela escassez de recursos. Na região de

Ribeirão Preto, há dois procuradores para acompanhar 39 usinas. É pouco, mas, graças

(também) às ações de fiscalização, hoje está quase erradicado um fenômeno do passado,

o trabalho infanto-juvenil no corte da cana no Estado.

Filhos não reconhecem os pais

Cerca de 40% dos trabalhadores na colheita de cana-de-açúcar em SP são migrantes

provisórios

Houve um dia em que Raimundo Francisco foi contar a história da sua vida aos seis

companheiros com quem divide uma casa no interior de São Paulo. Nenhum ficou até o

fim. "Para não chorar", diz. Todos são do Maranhão. Seis vieram de Codó, um de

Timbiras, municípios cujos índices sociais fazem dos bairros pobres de SP o melhor lugar

do mundo.

Reginaldo trabalhava na roça própria. Fora da época da colheita, "o pior do dia era chegar

em casa e não ter o que comer". No fim do ano, ele reencontrava os amigos que desde

abril estavam para os lados do sul colhendo cana. Apareciam com "uma motinho, um

som". "Eu queria ter também."

Como os outros maranhenses que se apertam em dois cômodos. O mais novo tem 22

anos. O mais velho, 46. São casados, com quatro filhos na média. Dois são alfabetizados.

Dizem ganhar de R$ 700 a R$ 900 mensais brutos, mantêm contratos de safristas com

usinas -em novembro rumam para o Maranhão. Sustentam-se longe de suas terras,

mandam ajuda e persistem no sonho de não retornar de mãos vazias. Falam dos filhos

que não os reconhecem na volta. Dois garotos de Raimundo choraram e fugiram ao vê-lo.

A União da Indústria da Cana-de-Açúcar estima que pelo menos 54 mil cortadores de

cana do Estado (40% da mão-de-obra) sejam migrantes provisórios. Deve haver mais,

porque muitos já são inscritos com seus endereços paulistas. Milhares desembarcam em

ônibus alugados por eles ou por "gatos", os intermediários da contratação para o corte.

Na leseira da folga semanal, os colegas inventariam estragos. Edizon cortou um dedo

amolando o facão. Com dor na coluna, Manoel não comparece à lavoura há dois dias.

Pedem que não se diga em que cidade moram, mas permitem a gravação da entrevista.

Sabem de quem arruma outra família, "local". E de conhecidos que voltaram oito meses

depois e deram com a mulher recém-barriguda. As moças paulistas da vizinhança não

estão nem aí para os cortadores. Amigos lastimam que, no prostíbulo, a rameira menos

cotada cobre o equivalente a um dia e meio de salário do trabalhador.

Lida subjetiva

Para entidade que representa produtores, mídia tende a generalizar maus exemplos

pontuais

Na sala do décimo andar de um edifício da avenida Brigadeiro Faria Lima, onde o diretor

técnico da União da Indústria da Cana-de-Açúcar concede entrevista em São Paulo, as

paredes estampam seis fotografias emolduradas. Três mostram caminhões

descarregando cana; duas focam outros ângulos de uma usina; e uma descortina o

canavial imponente -sem vivalma à vista.

Esse mundo o administrador de empresas Antonio de Padua Rodrigues, 56, conhece

bem. Aos oito anos, nas férias escolares, ele cortava cana no interior. "Falar que é fácil é

mentira", reconhece. Uma tia morreu na mesma lida, picada por uma cobra cascavel.

Hoje o sobrinho dela, nascido em família modesta, é um fabuloso banco de dados

cerebral, uma das duas vozes mais reconhecidas da entidade que reúne usinas de São

Paulo -Estado produtor de 60% da cana do país-, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais,

Goiás e Espírito Santo. A outra face mais visível da Unica (pronuncia-se "única",

proparoxítona) é a do seu presidente, Marcos Jank.

Do que morrem os canavieiros? O corte de cana "não mata", afirma Padua. "Pode-se

morrer em qualquer situação, local e hora." Na sua opinião, "o serviço não leva à

exaustão. Ninguém é obrigado a cortar cana ininterruptamente".

Movimentos como as flexões não causam problemas? Complicações com a coluna

"também tem quem trabalha em escritório diante do computador", sustenta o executivo.

Mesmo assim, algumas companhias promovem ginástica laboral para os funcionários no

campo, como comprovam imagens em publicações. Ao acompanhar turmas de

empregados de usinas e fornecedores de cana, os repórteres não testemunharam

lavradores se exercitando -a não ser com o facão.

A associação dos usineiros rejeita projeções sobre a vida útil dos cortadores. Nem sabe

definir quanto tempo eles permanecem na atividade.

O pagamento por produção não incentiva o trabalhador a ultrapassar seus limites? "Não

existe esse absurdo de que falam", diz Padua. Ele estima o piso salarial no Estado em

uma faixa de R$ 480 a R$ 550. "O trabalho é difícil, penoso, mas não é desumano."

Segundo o Instituto de Economia Agrícola, em 2007 a remuneração média pelo corte em

São Paulo foi de R$ 720. Nas contas da Unica, por volta de 95% do emprego local no

cultivo da cana é formalizado.

A Unica contesta igualmente as autuações do Ministério do Trabalho por submissão, em

canaviais, de trabalhadores a condição análoga à de escravo.

Há excessiva subjetividade na interpretação dos fatos, diz Padua. "Pagar abaixo do

salário mínimo é trabalho escravo?", indaga. Propõe revisar a legislação para torná-la

mais clara -o Código Penal prevê o crime referente ao trabalho escravo.

"Heróis" de Lula

Um problema do setor sucroalcooleiro, aponta Padua, é a terceirização da produção de

cana. Protocolos definem o fim da prática para 2010 em São Paulo. Ela "traz desconforto",

diz, porque as usinas "têm que responder [na Justiça] como se fosse trabalho próprio".

Na visão dos usineiros, pesquisas sobre o impacto nocivo do trabalho padecem de

limitação severa: o universo pequeno dos indivíduos analisados. É o caso, exemplificam,

de tese sobre o nível elevado de substâncias cancerígenas na urina de 41 cortadores

durante a safra.

Outra crítica se dirige contra organizações civis e o jornalismo. Do ponto de vista da

Unica, tomam-se como padrão alguns maus exemplos pontuais de gestão do trabalho. A

agremiação e seus 117 associados (eram menos de 90 um ano atrás) mantêm 154

iniciativas de qualificação de mão-de-obra.

O segmento de cana, açúcar e álcool deve movimentar R$ 40 bilhões neste ano no Brasil,

diz a Unica. O valor corresponde a pouco mais de 1,5% do PIB.

A Secretaria da Agricultura e Abastecimento avaliou que a cana-de-açúcar representou no

ano passado 36% do valor da produção agropecuária de SP.

O Estado deve fechar o ano com 181 usinas, sete a mais que as já em funcionamento. No

centro-sul, incluindo o Sudeste, de 80 a 90 devem começar a operar em três anos. No

país, há em torno de 370.

A imagem dos usineiros, que já foram sinônimo de irresponsabilidade social e paradigma

de beneficiários de benesses do Estado, vem mudando. Pelo menos para o presidente da

República, natural de Pernambuco, área canavieira tradicional.

Luiz Inácio Lula da Silva disse em março de 2007: "Os usineiros, que até seis anos atrás

eram tidos como se fossem os bandidos do agronegócio neste país, estão virando heróis

nacionais e mundiais porque todo mundo está de olho no álcool".

Neste ano, Lula minimizou o trabalho degradante na roça: "Vira e mexe, estamos vendo

eles [europeus] falarem do trabalho escravo no Brasil, sem lembrar que no

desenvolvimento deles, à base do carvão, o trabalho era muito mais penoso que o

trabalho na cana-de-açúcar".

Os usineiros são mesmo heróis? Padua cita o jogo duro do mercado mundial, as pressões

ambientais e sociais. Sua síntese: os empresários "têm coragem de se expor. O setor não

é de aventureiros".

Na despedida dos jornalistas, a Unica entregou publicações, algumas em inglês. Nelas

cintilam fotos de usinas e de canaviais. Em nenhuma aparece um só trabalhador cortando

cana.

Manual antiquado

Máquinas já colhem 50% da safra em SP; a cada 1% de área mecanizada, 2.700

pessoas perdem emprego

Moradores de cidades litorâneas praguejam contra o estrago que a maresia faz nos

eletrodomésticos. Mas não têm idéia do inferno que é, para a limpeza de casa, a sujeira

nos municípios onde se cultiva cana.

Limpa-se de manhã, e, à noite, a fuligem das queimadas encobre tudo de novo. A

imundície vai acabar, bem como o fogo e os cogumelos de fumaça que lançam gás

carbônico e outros poluentes que conspiram para o aquecimento global.

Protocolo ambiental do governo do Estado com as usinas prevê para 2014 o fim das

queimadas em áreas passíveis de colheita mecanizada de cana e, para 2017, nas não

mecanizáveis (acima de 12 graus de declive). Conforme a Unica, estas representam em

torno de 7%.

Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da entidade, afirma que o prazo será

antecipado: "2014 será quase o fim". A produtividade dos cortadores é maior em lavouras

submetidas antes à queima. O fogo preserva as varas, e o corte manual fica mais

simples.

E menos perigoso -as queimadas eliminam animais peçonhentos. Na cana crua, a

colheitadeira é ainda mais rentável que o homem.

A safra deste ano (denominada 2008/2009), de abril a novembro, é a primeira em que

pelo menos metade da cana será colhida mecanicamente, anuncia a Unica. O custo da

operação da colheita mecanizada é 20% menor.

As máquina substitui cerca de 80 homens. O conjunto de equipamentos que inclui a

colheitadeira sai em média por R$ 1,2 milhão, calcula a Unica. Há 1.650 em ação em SP.

Em 2006, o Estado produziu 299 milhões de toneladas de cana e empregou 189,6 mil

pessoas no corte manual. No total, contando a colheita mecânica e a indústria de etanol e

açúcar, havia 260,4 mil empregados.

Em 2015, dizem os usineiros, será zero o emprego em colheita manual. Na cadeia

produtiva, haverá 127,8 mil funcionários, mesmo colhendo 457 milhões de toneladas.

Os cortadores são 135 mil em São Paulo em 2008, estimam os empresários. No Brasil, ao

todo seriam 335 mil. A Unica adota estatísticas de um estudo que, baseado no IBGE,

quantificou em 566 mil os trabalhadores no cultivo da cana no país em 2006. No

Nordeste, os cortadores serão mantidos por mais tempo que em SP.

No centro-sul, que concentra o setor sucroalcooleiro e inclui o Sudeste, a colheita na safra

é 11,57% maior que em 2007 no mesmo período. A produção de açúcar caiu 2,51%, mas

a de álcool se expandiu 15,61%.

Destina-se ao etanol 60% da cana. O Instituto de Economia Agrícola, da Secretaria de

Agricultura e Abastecimento de SP, avalia que, a cada 1% de área mecanizada,

desempregam-se 2.700 pessoas.

Vestígios arcaicos

O cenário verdejante que pigmenta as fotografias e colore o horizonte não passa de

ilusão -o tom do canavial é outro. A fuligem das queimadas ensombrece as varas de

cana-de-açúcar e torna rubro-negra a terra roxa em que outrora se fincavam cafezais.

Fragmentos da palha incinerada se amalgamam com o suor dos rostos e desenham

máscaras escuras. A cor predominante dos canavieiros, de banho tomado, não muda.

São negros -a soma de "pretos" e "pardos"- 63,7% dos trabalhadores no cultivo da cana

no país. A proporção supera os 43,4% de negros na PEA (população economicamente

ativa) e os 55% na PEA rural.

A característica se repete em São Paulo, onde a presença negra na labuta da cana beira

os 49%, o equivalente a 76% mais que na PEA geral do Estado e 54% mais que na sua

fração do campo -conforme o Censo de 2000, em dados colecionados pelo economista

Marcelo Paixão (UFRJ).

Os números frios ganham vida nas plantações. De perto, o canavial é mesmo negro.

Como eram os escravos que no Brasil moviam as moendas de cana, como documentou

aquarela de Jean-Baptiste Debret em 1822. Ou, em gravura de William Clark de meses

depois, os cativos que decepavam com facão a cana em Antígua.

Traços raciais e instrumentos de ofício se mantêm, mas o anacronismo vai além da

semelhança de personagens dos retratos atuais com os das pinceladas do século

retrasado.

É como se estatuto e cultura escravistas teimassem em permanecer, assim como um pé

de cana se agarra ao solo e por vezes rende dez safras.

"Já conversei com o meu feitor", diz um canavieiro, sobre a autorização para que ele

fosse fotografado para a reportagem (pedido negado). "O meu feitor é bom comigo",

concede outro.

Inexiste conteúdo pejorativo, na boca dos cortadores, ao pronunciar a palavra. No

Houaiss, uma acepção de feitor: "Diacronismo: antigo. Diz-se de encarregado dos

trabalhadores escravos".

É arcaico -ou velhaco-, porém os chefes de turma assim são chamados na roça. Imprimiuse

a expressão "feitor" em ação civil pública e em decisão judicial recentes.

Em meio ao canavial, o cortador cuida do seu "eito". "Não paro até acabar o meu eito",

conta um. O dicionário define eito como "plantação em que os escravos trabalhavam".

Analfabetismo

Assim como na escravidão africanos e descendentes cantavam, a cantoria hoje desafia o

silêncio nas fazendas. Não são tristes os canaviais.

Em Serra Azul, um peão embala os golpes de podão com refrão da dupla sertaneja Gino

e Geno: "Não é bebendo que você vai esquecer de mim; não é fugindo que o nosso amor

vai chegar ao fim".

Cortadores de cana apegam-se ao copo, reconhecem muitos deles. A convivência longe

da roça confirma.

A caninha não era tabu pré-Abolição. Na década de 1820, Carlos Augusto Taunay

recomendava aos senhores, no "Manual do Agricultor Brasileiro", distribuir cachaça aos

escravos após o jantar (reedição da Companhia das Letras, 2001, organização do

historiador da USP Rafael de Bivar Marquese).

Naquele tempo, confinava-se a escravaria no analfabetismo. Na Revolta dos Malês,

levante negro na Bahia de 1835, os líderes se distinguiram pelo domínio, raro, da leitura e

da escrita.

Colhe-se o semeado. Com base em estatísticas de 2006, os pesquisadores Rodolfo

Hoffmann (Unicamp) e Fabíola C.R. de Oliveira (USP) constataram que a escolaridade

média dos trabalhadores da cana é de 3,7 anos. Na classificação de educadores, isso os

reduz à condição de analfabetos funcionais.

No país, a média de estudo é de 6,9 anos. Na indústria do álcool, de 8,6.

Acumulam-se contratos em que a impressão digital do funcionário substitui a assinatura.

"Não vou mentir, nunca fui à escola", conforma-se uma lavradora. Ela não pode ler os

relatórios do Ministério do Trabalho e da Organização Internacional do Trabalho que

descrevem cortadores de cana "resgatados" e "libertados".

Em maio, a Justiça Federal do Maranhão condenou um fazendeiro por reduzir seres

humanos a condição análoga à de escravo. Ele foi acusado de torturar um funcionário

com ferro de marcar gado.

Também por trabalho escravo, em 2005 a Justiça Federal de Piracicaba sentenciou à

prisão um aliciador de paraibanos para o corte da cana em Nova Odessa (SP). Cabem

recursos.

Escravidão

Como interpretou Gilberto Freyre em "Casa Grande & Senzala", a cana "trouxe em

conseqüência uma sociedade e um gênero de vida de tendências mais ou menos

aristocráticas e escravocratas".

No canavial, o “mais ou menos” deu lugar ao paroxismo.

No livro clássico de 1933, o sociólogo pernambucano anotou que, nos idos de 1850,

anúncios apregoavam preferência por negros com todos os dentes da frente. Nas

plantações contemporâneas, multiplicam-se banguelas.

No finzinho do século 17, o jesuíta Jorge Benci pregava que os escravos não dessem

duro aos domingos, como cita Bivar Marquese no livro “Feitores do Corpo, Missionários

da Mente” (Companhia das Letras, 2004).

Hoje o Ministério Público do Trabalho combate o regime de cinco dias por um, adotado

em muitos canaviais, no qual poucas folgas caem nos domingos e feriados.

A escala impede os oriundos de Minas Gerais e do Nordeste de celebrar datas que lhe

são caras em virtude da religião.

No passado, batia o aperto, corria-se ao matinho: muitas empresas não instalam

banheiros móveis obrigatórios ou, por inibição, os lavradores os evitam.

Se antes os filhos da casa grande se iniciavam nos dengos da cama com as moradoras

mais formosas da senzala, agora se protocolam denuncias de assédio sexual de feitores

contra as cortadoras.

Nas famílias canavieiras, mulheres vivem de outra profissão herdeira do Brasil colonial:

são empregadas domésticas. Nessa atividade, elas têm mais tempo pela frente.

A socióloga Maria Aparecida Moraes Silva (Unesp) estima que a vida útil dos cortadores

seja de 15 a 20 anos. Ë menos que a dos escravos nas décadas derradeiras do cativeiro

no país. É como se os lavradores “estivessem em uma galé” escreveram os prefessores

Francisco Alves (UFSCar) e Marcelo Paixão.

Em 13 de maio de 1888, a princesa imperial firmou a lei n. 3.353, com dois artigos: “É

declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil. Revogam-se as

disposições em contrário”.

No interior paulista, evoca-se a história. Em Dois Córregos, um migrante pernambucano

sobrevive em uma espécie de cortiço na rua 13 de Maio. Em Guariba, uma habitação

degradada de cortadores maranhenses fica na avenida Princesa Isabel.

Em Piracicaba, uma blitz oficial parte de outra rua 13 de Maio. Vai para a roça, onde aves

de rapina perseguem os roedores que as queimadas expulsaram das tocas.

Sem dar pelota ao duelo entre ratos e urubus, homens e mulheres cortam cana.