Brasília - A realidade dos chamados bóias-frias no Brasil é uma das mais críticas, comparada com a dos assentados e acampados. Essa foi a conclusão de um estudo inédito elaborado pelo técnico da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) Fernando Ferreira Carneiro.
Segundo o levantamento, a situação de insegurança alimentar desses trabalhadores informais e sazonais é quase duas vezes maior que a registrada em famílias de sem terra acampadas e quatro vezes superior a de pessoas assentadas. Carneiro fez a pesquisa de campo na cidade mineira de Unaí, um dos centros do agronegócio brasileiro.
“Existia uma lacuna em termos de estudos sobre as condições de vida das populações do campo no Brasil. E ainda a falta de comparações entre assentados, acampados e os bóias-frias, algo inédito, que traz novos elementos de análise”, afirma o técnico da Anvisa.
Carneiro explica que os bóias-frias ficam mais expostos aos agrotóxicos, não possuem trabalho o ano todo e, por isso, não têm condições de se fixar e garantir seu sustento por meio de hortas e criação de animais. “Esse estudo aponta um pouco para esse projeto de país que a gente está querendo para o Brasil, para o povo brasileiro, e por um viés diferente do convencional. Agora com um olhar para a saúde e não apenas economicista."
A pesquisa faz ainda uma comparação entre as políticas públicas empregadas pelo governo, entre 1960 a 2005, nos três públicos existentes no meio rural: assentados, acampados e bóias-frias. Essa políticas, para o técnico da Anvisa, “historicamente não tem sido efetivas para as populações que vivem no campo”.
“Com todo o avanço que significou a criação do Sistema Único de Saúde, essas populações que estão na zona rural tem dificuldades de acesso, de discriminação. Essas pessoas não têm as facilidades que as pessoas da zona urbana têm. Apesar da dificuldade que a cidade vive, imagina a situação da parte rural, é bem pior."
No entanto, Carneiro lembra que nem todas as políticas propostas pelo governo deram errado. Ele conta que a o crédito, do programa de Reforma Agrária, “foi um grande diferenciador para os assentados e bóias frias".
“O Ministério da Saúde criou recentemente um grupo da terra, que está propondo um política nacional de saúde para a população do campo e da floresta. Se a gente pegar a Amazônia é um assunto mais complexo ainda. Está se apontado para mudanças, mas ainda há muito que se caminhar.”
O técnico da Anvisa lembra que já existem canais de diálogo entre governo e sociedade civil, como o Fórum do Grupo da Terra, que tem a participação das mulheres camponesas, quilombolas e seringueiros. Carneiro acredita que a pesquisa recém-concluída pode ser usada pelos movimentos para qualificar a luta contra "esse sistema de desigualdade e injustiça com relação às terras".
O estudo, intitulado A saúde no campo: das políticas oficiais à experiência do MST e de famílias bóias-frias, foi realizado na Universidade federal de Minas Gerais (UFMG). As pesquisas envolveram a aplicação de questionários e entrevistas com 202 famílias dos três diferentes públicos.