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sexta-feira 31 de agosto de 2007

Brasil: A cana da amargura

Maurilândia, 31/08/2007 – Eram pelo menos 200 passarinhos assados, cuja escassa carne comiam os bóias-frias neste pequeno povoado do Brasil. Não haviam caçado, simplesmente os recolheram do chão, entre os canaviais incendiados. “É minha maior tristeza. Já não há pássaros e animais silvestres em Maurilândia. Os poucos que restam, devido à falta de florestas, se refugiam em meio à cana-de-açúcar e morrem quando se coloca fogo na plantação para permitir a colheita manual”, lamentou Corí Alves Ferreira ao recordar o macabro banquete. Os canaviais rodeiam esta cidade de aproximadamente 10 mil habitantes no sul de Goiás, que sofre os efeitos econômicos, ambientais e sociais da fábrica Vale do Verdão, produtora de açúcar e álcool instalada a menos de um quilômetro da área urbana.

Entre a fábrica e a cidade corre o rio Verdão, que também é afetado pelos canaviais que se estendem até suas margens. O cheiro de cana queimada e a vinasa (resíduo líquido do processo de destilação para obter álcool de cana) se sente mais forte em algumas horas do dia. As ruas poeirentas agora apresentam uma cor enegrecida em lugar do quase vermelho que era sua marca característica. A fumaça cobre a cidade quando se coloca fogo nos canaviais, uma necessidade para o corte manual, enquanto a colheita não é mecanizada.

Aos 70 anos, Alves Ferreira tem muitas lembranças, boas e amargas, da cidade que ajudou a fundar, sendo ainda adolescente, junto com seus irmãos e muitos outros aventureiros procedentes de todas as partes em busca de diamantes no rio Verde. Seu pai, que adquiriu terras no que hoje é o município de Maurilândia, morreu quando Corí tinha 9 anos. Os diamantes encontrados no rio permitiram que ele e seus cinco irmãos enriquecessem. Logo chegaram cerca de três mil pessoas, que levantaram uma precária localidade, marcada por disputas e assassinatos.

Porém, os diamantes esgotaram e a malária atacou “até os macacos”. Foi uma debandada: restaram apenas cerca de 300 dos moradores originais. Corí, que por alguma razão nunca teve a doença, foi abrir os caminhos que se converteram no que hoje são as largas ruas principais de Maurilândia. Também foi o primeiro a ter um veículo, um jipe, com o qual transportava doentes para a cidade vizinha, dando uma longa volta para cruzar o rio. O povoado foi elevado à categoria de município em 1963, quando chegou a ter cerca de duas mil pessoas.

Corí Alves Ferreira foi seu primeiro prefeito, eleito para o período 1965-1969, quando tinha 26 anos de idade. “Chorei”, confessou, ao ter de abandonar o campo que havia sido toda sua vida e pelo que tinha pela frente. Comprou uma casa para ser a sede da prefeitura e da Câmara Municipal. O surgimento de uma febre que “emudecia as pessoas” o levou a construir uma balsa para romper o isolamento imposto pelo rio: 50 metros, de margem a margem. O jovem prefeito conseguiu que Maurilândia fosse uma das primeiras cidades da região a ter eletricidade e implantou um sistema de abastecimento de água potável.

Como não havia reeleição, foi vereador antes de voltar a comandar a prefeitura entre 1973 e 1977, quando construiu escolas e serviços de saúde. Deixou o governo pobre. Não recebia salário do município e pagou de seu bolso obras de eletrificação. Teve de vender sua fazenda. Entretanto, lhe restaram alguns imóveis, cujos aluguéis lhe garantem uma vida modesta. Ficou viúvo, voltou a casar, tem seis filhos já adultos. Não gosta de política nem quer ser rico, deseja apenas ter dinheiro suficiente para realizar o sonho de percorrer o Brasil. Também quer reiniciar sua carreira de cantor, interrompida depois de ter gravado o único disco da carreira, em 1984, devido ao falecimento de seu companheiro de dupla sertaneja. Algumas canções das quais é co-autor ainda são ouvidas em rádios do interior do País, diz Corí com orgulho.

Está descontente porque seu sucessor na prefeitura não concordou em doar uma área para a Vale do Verdão. A empresa se instalou do outro lado do rio, no município de Turvelândia. “Maurilândia ficou com a sujeira e sem a renda dos impostos”, afirmou. Mas sua maior preocupação “é a questão ambiental”, porque a cana leva ao desmatamento, inclusive nas áreas ribeirinhas, contaminando inclusive águas do manancial que abastece a cidade, acrescentou. Além disso, extermina os pássaros. A população que vive mais próxima da fábrica se queixa do mau cheiro que sai dos estábulos onde a mesma empresa cria gado bovino, alimentado com bagaço de cana.

A contaminação causa doenças respiratórias e dermatológicas. Marluce da Silva, enfermeira do hospital local, suspeita que os agrotóxicos aumentaram os casos de câncer de pulmão, intestino e fígado. Sua colega Vânia de Souza, do Posto de Saúde da Família, se queixa da sobrecarga que representa para os cortadores de cana para um município de escassos recursos. Milhares de pessoas chegam nos meses de colheita, em geral de maio a dezembro. A eles se somam os habitantes de cidades vizinhas que buscam ajuda mais qualificada e acessível em Maurilândia.

Um desses casos foi o de Daniel Correia, que machucou o polegar da mão direita em um acidente enquanto trabalhava em uma produtora de açúcar de Porteirão mas foi tratado em Maurilândia porque estava alojado na cidade. Correia de 25 anos, casado e com dois filhos, é natural do Maranhão, no nordeste brasileiro, região que fornece a maior parte dos cortadores de cana que trabalham em Goiás. Viajam três dias em ônibus, pagando cerca de US$ 100 pela passagem para ganhar aproximadamente US$ 400 por mês quando há cana para cortar. Um trabalho duro, com jornada de 10 ou mais horas por dia. “É pouco, mas a na usina da minha terra se ganha muito menos, US$ 100 no máximo”, explicou Francisco Lopes da Silva, que deixou sua mulher e dois filhos no Maranhão.

Os milhares de trabalhadores que sobrecarregam os serviços públicos de Maurilândia também incrementam a prostituição e a gravidez precoce, diz uma queixa que se repete nesta cidade. O Posto de Saúde da Família atende atualmente 110 grávidas, a maioria delas não residente estável, segundo a enfermeira Souza. Muitas adolescentes são mães aos 14 ou 15 anos, mas “este é um fenômeno que ocorre em todo o País”, admitiu. A enfermeira está em Maurilândia desde maio e acredita que a exploração da cana é benéfica. “A usina gera empregos, não falta trabalho para quem quer trabalhar e não tem mendigos ou miseráveis nas ruas”, acrescentou.

Entretanto, Silvana Flores Felipe, professora desde 1989 e dona de um açougue, diz que a dependência da cana é fatal para a economia local. Contou que está falindo. As usinas agora oferecem aos seus trabalhadores todas as refeições, tirando compradores dos estabelecimentos comerciais da cidade. Além disso, construíram alojamentos em suas próprias terras e outros novos estão sendo construídos em municípios do sul de Goiás, atraindo população e negócios de Maurilândia, lamentou Silvana, que herdou o açougue de seu marido assassinado no assalto a um banco em 2005. Os assaltantes, entre seis e oito, “foram cercados pela polícia, que chegou atirando”, contou. Seu marido foi ferido nas pernas e depois recebeu um tiro de graça dos bandidos, que tentaram levá-lo como refém. “A cidade ficou paralisada por três dias”, recordou.

Lisângela Santos, comerciante em um bairro pobre de Maurilândia, também não acredita nos benefícios econômicos da cana-de-açúcar e identifica como um problema grave os casos de “maridos de colheita”, que abandonam suas mulheres grávidas quando voltam para suas terras distantes. Muitas adolescentes os procuram porque uma possível relação estável pode garantir alguma renda a elas, como uma pensão pelo filho, afirmou. “A cana não oferece empregos para mulheres”, disse Santos.

Uma adolescente de 16 anos, que pediu para não revelar seu nome, é um exemplo desta situação. Tem um filho de nove meses, cujo pai é motorista de caminhão em uma usina próxima, com quem ficou dois anos. Lá continuou estudando e garantiu que não sofre discriminação ou brincadeiras por sua condição. Em seu grupo há outras três mães adolescentes. Tampouco teve problemas com sua mãe, empregada doméstica divorciada que, entretanto, disse ter ficado surpresa com a precocidade sexual da atual geração. Sua filha teve a primeira relação aos 12 anos, com um cortador de cana. (IPS/Envolverde)