Brasil ; Estudo revela alto nível de desgaste físico dos cortadores de cana em SP Actualidade News Actualidad
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O Globo - mardi 18 janvier 2011

SÃO PAULO - Um levantamento inédito feito pela Vigilância Sanitária da Secretaria de Saúde de São Paulo com cortadores de cana de 27 usinas da região de Ribeirão Preto, no norte paulista, revelou o alto nível de desgate físico imposto aos trabalhadores do setor. As condições insalubres de trabalho dessa categoria não são novidade, mas o que impressiona no estudo é uma radiografia detalhada da rotina extenuante e repetitiva desses homens. No estado de São Paulo são, aproximadamente 140 mil cortadores.

 

Segundo o estudo, a cada um minuto trabalhado, são feitas 17 flexões de tronco por minuto pelo cortador e aplicados 54 golpes de facão. O joelho fica todo o tempo semiflexionado e há extensão da cervical. Não há sombra nos canaviais e o cortador não se hidrata adequadamente. Ao longo do dia, diz o estudo, o trabalhador perde oito litros de água do corpo.

Por dia, são cortadas e carregadas em média 12 toneladas de cana em São Paulo. Nesse trabalho, o cortador percorre um percurso de quase nove quilômetros, em média. Os trabalhadores levam água de casa para beber na lavoura e depois reabastecem nos reservatórios dos ônibus, que em maioria não são refrigerados e apresentam péssimas condições de higiene. Como comem no canavial, os trabalhadores também não têm local adequado para guardar as marmitas e a comida estraga.

- Descobrimos que cerca de 40% da água consumida por eles não era potável. Não há lugar adequado para armazenar a alimentação consumida que, muitas vezes, azeda com o calor. Mas eles são obrigados a comer por causa do esforço físico. As consequências são dores de estômago, diarreias, entre outras doenças. O dono da lavoura não oferece condições básicas, como mesa e cadeira para refeição. E não há sanitário. E estamos falando do estado mais rico do Brasil - diz a diretora da Vigilância Sanitária do estado de São Paulo, Maria Cristina Megid, uma das coordenadoras do estudo.

Para chegar a esses números a equipe da vigilância acompanhou 229 turmas cortadores de cana entre 2007 e 2009. Das 27 empresas pesquisadas, 29 foram autuadas por irregularidades.

- Não há como ver as condições de trabalho dos cortadores de cana e não se emocionar - diz Maria Cristina.

O estudo servirá de base para nova regulamentação para o setor. Segundo ela, durante o primeiro semestre deste ano, o governo do estado deve fazer consultas públicas para editar normas para melhorar a condição dos cortadores de cana.

Ao todo, a Vigilância abriu processos administrativos contra 197 usinas fiscalizadas em 144 municípios do estado de São Paulo. Segundo Maria Cristina, boa parte das empresas apresentaram programas de adequação após a fiscalização.

A próxima safra começa em junho e as empresas que não se cumprirem às exigências do órgão estadual podem ser impedidas de realizar a colheita.

Em nota oficial, a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) rebateu as criticas da vigilância e afirma que oferece água tratada e gelada para todos os trabalhadores e que o setor cumpre as normas de trabalho dentro dos acertos entre sindicato e governo.

- O estudo sobre o trabalho nas lavouras de cana, contém uma série de erros e conclusões equivocadas, distantes tanto da realidade do setor quanto das posturas que o setor vem adotando há vários anos. A nota (da Vigilância Sanitária) afirma haver descumprimento de obrigações legais, como o uso de equipamentos de proteção individual e a disponibilização de água fresca, de forma absolutamente genérica, sem indicação mais concreta do que está sendo alegado. A Unica rejeita esse tipo de alegação - diz a nota

Segundo levantamento da Unica aproximadamente 40% dos canaviais ainda utilizam este tipo de mão-de-obra.

O presidente da Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil (Orplana), Ismael Perina Júnior, diz que atender as exigências da Secretaria de Saúde aumentará os custos de produção.

- Teremos que cumprir o que a legislação determina. As adaptações têm impacto no custo e não temos como repassar, pois o preço é balizado pelo mercado. O custo da colheita deve subir quando fizermos essas mudanças - destacou Perina.