CONTRA USINAS NO RIO PARAGUAI E NO PANTANAL Actualité News Actualidad
O açúcar através do mundo →

Correio do Estado - quinta-feira 12 de outubro de 2006

Ambientalistas presentes na reunião de segunda-feira na Ecoa decidiram tomar algumas providências práticas com relação à proposta do deputado Dagoberto Nogueira Filho (PDT) de voltar à carga com a questão das usinas de álcool na Bacia Hidrográfica do Rio Paraguai. Segundo o presidente da Ecoa, Alessandro Menezes, serão feitos levantamentos jurídico e econômico (retorno de impostos e geração de empregos), além de mobilização nacional e internacional através de e-mails para ambientalistas e ONGs do mundo inteiro.

 Mobilização

A Ecoa vai pedir que eles enviem cartas aos deputados na tentativa de barrar a aprovação da mudança no referido projeto. Se nada adiantar, a ONG vai colocar carta poderosa na mesa. Ou seja, vai mobilizar organismos internacionais para que compradores de álcool boicotem o produto como sendo "álcool sujo do Pantanal". Como os estrangeiros são muito mais conscientes e sensíveis com a questão ambiental, a megaação pode render excelentes resultados para o meio ambiente.

VINHOTO ZERO? ONDE?Sônia Hess* e Patrícia Zerlotti***Professora da UFMS e **Jornalista da ECOA O processamento industrial da cana-de-açúcar implica na geração de milhares de litros de líquidos com elevadas concentrações de açucares e substâncias derivadas. Portanto, em qualquer etapa do processo existe o risco de vazamento destes materiais, que podem ocasionar grandes desastres ambientais. Por exemplo, em 29 de setembro de 2003, o rompimento de um tanque de melaço da Usina da Pedra, localizada no município de Serrana/SP, causou a destruição de um trecho de 20 km do Rio Pardo e os efeitos do vazamento foram percebidos a uma distância de 150 km do acidente, atingindo a 13 municípios e comprometendo a água de abastecimento do município de Colômbia/SP.Com relação às declarações de que atualmente o vinhoto não representa risco porque é empregado como adubo na plantação de cana, devemos ressaltar que existe um equívoco nesta afirmação. O vinhoto, que sai das usinas de produção de álcool, é utilizado, sim, como adubo, mas somente depois de passar um tempo em lagoas onde é resfriado e estabilizado, já que sai do processo produtivo a uma temperatura superior a 100 graus centígrados. Tanto é assim, que não há usina de álcool sem reservatórios para o vinhoto. Durante a estocagem e transporte, existe o perigo de ocorrerem vazamentos desse material para cursos d'água. Quando argumentam que a cultura da cana é menos danosa do que a soja, estão certos sob o ponto de vista da conservação do solo, mas não estão levando em consideração o fato de que, como não é viável transportar a cana-de-açúcar por longas distâncias, nas regiões onde são implantadas plantações de cana são implantadas também, necessariamente, usinas para processá-la. Portanto, ao se pensar em cana-de-açúcar há de se pensar, obrigatoriamente, em vinhoto e em outros líquidos com elevado potencial poluidor dos recursos hídricos.A implantação de culturas de cana-de-açúcar ou de usinas na bacia do Rio Paraguai representaria um grande risco para o pantanal, já que os cursos d’água que o abastecem têm fluxo lento, dificultando a depuração no caso de ocorrer algum vazamento de líquidos com elevada carga de matéria orgânica, provenientes do processamento industrial da cana-de-açúcar. Se, por um lado, atualmente há um grande potencial de crescimento do mercado mundial de álcool e açúcar, por outro lado, deve-se considerar que, se usinas de álcool e açúcar forem instaladas na região de influência do Pantanal, o álcool ali produzido muito provavelmente não deverá gerar créditos de carbono. Isto poderá ocorrer porque, dentre as exigências para a comercialização dos créditos de carbono, há destaque para que a produção seja ambiental e socialmente correta. Dificilmente, os empresários conseguirão convencer as autoridades que fiscalizam o mercado de carbono, de que a implantação de usinas, dentro da bacia do Pantanal, não representa risco sério a este patrimônio da humanidade.

Portanto, a insistência de políticos e empresários em implantarem usinas de álcool e açúcar na bacia pantaneira poderá render grandes prejuízos para os exportadores destes produtos. Será que todo este risco vale a pena?