O cortador de cana-de-açúcar José Pereira Martins, de 51 anos, reclamou da “dureza” do seu trabalho um dia antes de morrer, num canavial de Guariba. Ele disse ao Estado que o trabalho de cortador era “muito pior” do que o de pedreiro. “Canavieiro é o pior serviço que existe.”
A reportagem do Estado entrevistou Martins no início da noite de quarta-feira em sua casa, no bairro Vila Varela, periferia de Guariba. No dia seguinte, acompanhou o que seria a última viagem do cortador para o canavial. Martins caminhava pela rua, com a cortadora Ana da Conceição, de 37 anos, moradora do mesmo bairro, quando foi abordado pela reportagem. Pediu que o procurassem depois, em casa, pois estava ansioso por um banho.
Ele atendeu no portão, depois de ser avisado pela mulher. Foi logo dizendo que a casa, de padrão médio para um bairro periférico, tinha sido construída quando trabalhava como pedreiro. Contou que trabalhava nos canaviais da Usina Cosan havia 4 anos e 6 meses.
Ele reclamou da dureza do serviço. “Estou nessa porque é o último recurso.” Ele se queixou do cansaço e de dores na coluna. Como tinha 25 anos de serviço em carteira, estava mexendo com a aposentadoria. “Está meio difícil.”
Naquela semana, estava trabalhando no plantio, mas logo ia começar a colheita. À pergunta se o cansaço seria maior, respondeu. “É pior, mas quem está na chuva...”
O salário era outra queixa. Martins disse que no plantio tirava entre R$ 450 e R$ 500 por mês. Já na safra, o ganho subia para R$ 700 ou R$ 750. “Você se mata e no final do mês mal dá para pagar as contas.”
No dia seguinte, a reportagem acompanhou a última viagem do cortador José Pereira Martins. O dia não tinha clareado e ele já estava no ponto, sentado em um galão de água. Logo chegou a amiga Ana. Trocaram um cumprimento breve. Quando o ônibus chegou, ele sentou-se na parte da frente e viajou calado. Repórter e fotógrafo também embarcaram.
O coletivo percorreu várias ruas da cidade, recolhendo trabalhadores. Logo estava lotado com 50 bóias-frias. Depois, o ônibus pegou a rodovia na direção de Matão e entrou numa estrada de terra. Houve uma parada na usina para a distribuição de funções - os repórteres tiveram de desembarcar, mas seguiram o ônibus por canaviais poeirentos. Quando parou, Martins e Ana desceram.
Naquele dia, iriam primeiro capinar, depois cortar cana para o plantio. Antes do trabalho, eles iniciaram uma sessão de ginástica laboral. Martins sumiu no meio do canavial, enquanto os repórteres eram convidados pelos encarregados da usina a deixar o local.
Ele passou mal após o almoço e, segundo a assessoria da usina, foi socorrido e levado para o hospital.
POLÊMICA
A morte de Martins volta a reacender a polêmica sobre o excesso de esforço em lavouras de cana-de-açúcar. O atestado de óbito, emitido pelo Centro de Medicina Legal (Cemel), de Ribeirão Preto, indica que a morte ocorreu por enfarte agudo do miocárdio. E Martins estava trabalhando no plantio, um serviço leve, comparando-se com o ritmo pesado e sofrido do corte de cana. Porém o Ministério Público do Trabalho (MPT), da 15ª Região, vai investigar também esse caso de morte no campo, o 18º nos últimos anos - os outros 17 ocorreram com cortadores de cana.
Martins foi o primeiro trabalhador a morrer em canaviais este ano no Estado de São Paulo. Nascido em Araçuaí (MG), morava em Guariba nos últimos 30 anos, onde fez diversos outros serviços antes de, em 1999, ir para os canaviais.
Ele já queria parar e mudar para Campinas com a mulher Maria Margareth para ficar perto dos filhos Edson e Robson. “Já estavam se preparando para mudar, era a última vontade dele”, disse Michele, mulher de Edson. A família ficou abalada com a morte repentina de Martins, que não tinha problemas de saúde, mas se queixava à mulher, nos últimos dias, de cansaço e do calor. “Foi um baque para todos”, explicou Michele.
A mulher e os filhos não querem falar mais sobre a morte do trabalhador, mas Michele mencionou que a família acredita que Martins tenha sido vítima de excesso de esforço físico nos canaviais. “A família só quer os direitos dele e nada fará contra a usina”, informou ela, que se mostrou descrente contra qualquer tipo de punição às empresas por morte no campo. “É mais um caso que será investigado, mas ninguém faz nada.”