Os combustíveis movem máquinas, os alimentos movem seres vivos. Ambos são energias.A primeira fonte de energia está nas estrelas. Em nosso caso o sol.
A Terra gira ao seu redor; recebe sua luz, que, por sua vez, interfere no ciclo das águas, dos ventos e possibilita a fotossíntese das plantas. Aliás, na Terra, o único ser vivo que produz seu próprio alimento - e depois serve de alimento para os animais na cadeia alimentar - é o vegetal. Sem energia nada se move.
A energia que move os seres vivos, dentre eles a pessoa humana, é o alimento. Sem alimento não temos força, não raciocinamos, nos debilitamos, morremos. Nesse sentido, água também é alimento.
Reparem então na política do governo brasileiro. Ao ocupar cada vez mais solos para produzir álcool e biodisel, o governo estabelece uma política de competição na ocupação dos espaços, entre os combustíveis para carros e os alimentos para os seres humanos. Agora, inclusive, o presidente fala abertamente que "os produtores de soja, à semelhança dos produtores de cana, terão duas opções: produzir soja para ração ou produzir soja para biodisel". Fala assim de forma mágica, como se ocupar solos e água para produzir energia para a indústria automobilística, do carro individual, não tivesse nenhuma relação com o latifúndio, com a concentração das terras, das águas, portanto, com a degradação dos solos, dos mananciais e com a multidão dos sem terra que habitam as margens das estradas. Vale lembrar que quem põe a mesa do povo brasileiro é a agricultura familiar, não o agro e hidronegócio.
O programa do álcool brasileiro, assim como o biodisel, é visto até por "verdes" da Europa como um caminho ecologicamente correto a ser seguido. Claro, desde que os solos ocupados, a água consumida e a exclusão social estejam nos países do terceiro mundo.
Hoje é muito mais fácil entender a cabeça do presidente Lula. Ele pensa como um operário do ABC, um sindicalista, a outra face do capital, mas umbilicalmente ligado a ele. Lula é o homem do desenvolvimento industrial, dos grandes empreendimentos, tanto no campo como na cidade. Não é maldade, é uma visão de mundo. Por isso, para ele é normal e lógico investir no agronegócio, no hidronegócio, no álcool, no biodisel, na volta da energia atômica, na construção de novas barragens, assim por diante. Afinal, nesse credo, "não há desenvolvimento sem sacrifício da natureza e de pessoas humanas". Claro que ele mantém uma sensibilidade social, mas nessa lógica, subordinada ao grande capital e só depois que os caprichos desse estiverem satisfeitos.
Quem quer um outro conceito de desenvolvimento, saiba que não vai encontrá-lo num segundo governo Lula. Mas também não vai encontrá-lo em nenhum dos outros candidatos. Tem gente boa no páreo, mas o conceito de desenvolvimento de todos é o da velha, excludente e predadora revolução industrial. Hoje, para se ter um novo conceito de bem estar e progresso, é preciso uma revolução no entendimento do que eles significam. Entretanto, essa revolução está longe de acontecer, sobretudo no mundo político.