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BBC - sexta-feira 6 de junho de 2008

Discussão sobre etanol expôs más condições em canaviais

O destaque dado ao etanol na discussão travada sobre vantagens e desvantagens dos biocombustíveis expôs as condições de trabalho dos cortadores de cana no Brasil e forçou mudanças no setor canavieiro, afirma uma reportagem publicada na edição de quinta-feira, 5, do jornal britânico The Guardian.

"As condições de trabalho dos cortadores de cana eram raramente observadas quando a mercadoria exportada era o açúcar, mas isso mudou agora que o Brasil é o segundo maior exportador mundial de etanol à base de cana", diz o texto.

Intitulado

O sol se põe sobre os cortadores de cana brasileiros, o texto destaca a mecanização dos canaviais imposta pelos países desenvolvidos, que estão focados na produção brasileira de biocombustível.

Segundo a reportagem, a substituição do trabalho manual deixaria cerca de 500 mil cortadores de cana sem emprego.

"Meio milhão de empregos e cinco séculos de tradição serão eliminados da crescente indústria de cana-de-açúcar brasileira para satisfazer a demanda ocidental por práticas de trabalho mais justas no setor dos biocombustíveis", diz a reportagem.

'Contos'

Segundo o texto, o interesse em eliminar a prática dos cortadores de cana esconde ainda mais um "conto" sobre a exploração nos canaviais que já prejudicou a imagem do Brasil em importantes países importadores de biocombustíveis, como a Suécia e a Grã-Bretanha. 

A reportagem destaca o crescimento da produção de etanol no Brasil em 2007, "com um recorde de 22 bilhões de litros, dos quais 4 bilhões foram exportados". No entanto, o texto afirma que o "sonho" de aumentar a indústria para exportação de biocombustíveis pode ser ameaçado pelos argumentos dos críticos, que vão além dos "contos" sobre a exploração nos canaviais.

"Esse sonho está ameaçado, pois o setor dos biocombustíveis está atolado de argumentos como ‘a comida pelo combustível’ e a idéia de que o aumento no preço dos alimentos pode ser atribuído ao uso da terra para plantação de grãos", afirma a reportagem.

Críticas

A matéria do Guardian cita ainda outras críticas à produção de biocombustíveis no Brasil, como os danos ao meio ambiente provocados pelo trabalho manual na lavoura de cana-de-açúcar. O texto cita também as preocupações com o desmatamento de algumas áreas da bacia Amazônica.

A reportagem cita alguns argumentos de Marcos Jank, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Única), para rebater as críticas à produção brasileira de etanol. Ele afirma que os subsídios aos agricultores e biocombustíveis nos Estados Unidos e Europa pode ser a causa do aumento nos preços dos alimentos. Segundo ele, o Brasil não estaria contribuindo para essa crise já que apenas 1% de terra arável é usada na produção de etanol.

A reportagem destaca ainda que Jank "é enfático em afirmar que o aumento na produção de etanol não está afetando a Amazônia, indicando que a área seria muito úmida para plantação de açúcar".