Distrito tem economia baseada na Usina Albertina, que não tem pago os salários
Em supermercado do distrito de Sertãozinho, há casos em que dívidas de trabalhadores rurais já ultrapassam os R$ 1.000 A vida em Cruz das Posses não é mais a mesma desde dezembro, quando a usina Albertina, a principal empregadora do distrito de Sertãozinho, na região de Ribeirão, parou de pagar os salários de 1.800 trabalhadores da indústria e das lavouras de cana-de-açúcar.
Se as donas-de-casa sofrem porque não conseguem mais pagar o aluguel e compram com dificuldade a comida dos filhos, os comerciantes também penam por dependerem diretamente de quem consome com o salário da Albertina.
A usina entrou com pedido de recuperação judicial em novembro, alegando uma dívida de US$ 100 milhões. Depois disso, os credores conseguiram bloquear na Justiça a venda de cerca de 350 mil sacas de açúcar, a única fonte de receita da empresa, segundo o diretor de negócios e assuntos legais da Albertina, Fabiano Colussi.
"Eu tenho 25 anos de mercado e outros 20 anos de armazém. Nesses 45 anos de comércio, nunca tinha visto acontecer o que acontece hoje em Cruz das Posses. Praticamente 75% das pessoas aqui trabalham para a Albertina. É muito triste", diz José Luiz Perna, 58, dono de um supermercado no centro do distrito.
Assim como em muitas cidades pequenas -o distrito tem aproximadamente 9.000 habitantes-, comerciante em Cruz das Posses vende fiado e a garantia do pagamento está no nome dos clientes anotado à caneta em cadernetas.
No caso de Perna, as vendas já ficaram limitadas, dependendo do tamanho da dívida dos fregueses. Segundo ele, há quem tenha mais de R$ 1.000 em contas atrasadas.
"É tudo gente muito honesta. Eles mesmo vão se controlando. Se compravam dez pães, hoje compram dois. Tem muita gente que vem pedir comida, diz que está com fome. Tem gente que pede até dinheiro, mas isso a gente não pode dar porque também não tem", diz Irene David, 62, dona da panificadora São José.
Além de ver a crise da usina se refletir no caixa de seu negócio, ela vê os reflexos também na família. O filho trabalha no transporte da cana. Sem receber, deixou de pagar o salário dos motoristas de caminhão contratados para ajudá-lo e pediu empréstimo em banco.
O padre de Cruz das Posses, Cléber Augusto da Silva, 29, faz missas em casas de família duas vezes por semana e reza para que a situação se reverta. "As famílias pedem dinheiro para voltar para o Nordeste, algumas pedem cesta básica."