Grupo de 208 cortadores faz greve Actualité News Actualidad
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Jornal de piracicaba - quarta-feira 1º de novembro de 2006

Um grupo de 208 cortadores de cana-de-açúcar, alojado no bairro Paraisolândia, em Charqueada, decretou greve há 11 dias, alegando precariedade nas condições de trabalho. As reclamações dos trabalhadores são confirmadas pela Feraesp (Federação dos Empregados Rurais Assalariados de São Paulo). O Grupo Cosan, responsável pela contratação, nega as acusações.

Os trabalhadores reclamam do baixo valor pago pelo metro de cana cortado, da falta de assistência médica, da comida e de maus-tratos por parte dos fiscais. Eles acionaram na tarde de ontem o Ministério Público do Trabalho. De acordo com a assessoria de imprensa do órgão, a denúncia passará por trâmites administrativos antes de ser direcionada a um procurador.
A Feraesp está negociando junto ao Grupo Cosan as reivindicações dos trabalhadores. O grupo quer a rescisão imediata do contrato –– todos foram contratados por tempo indeterminado. A empresa quer que o grupo trabalhe até o final da safra, prevista para o dia 25 de novembro.
Segundo o sindicalista Miguel Ferreira dos Santos Filho, já houve três tentativas de negociações, sem nenhum avanço. Os trabalhadores pretendem fazer amanhã, no começo do dia, uma marcha de protesto até a Usina Costa Pinto. O objetivo é conversar diretamente com membros da diretoria.
RECLAMAÇÕES – Os trabalhadores chegaram a Charqueada divididos em dois grupos. O primeiro, com cerca de 40 homens, veio do interior da Paraíba e do Maranhão, e chegou no dia 15 de abril. O maior, todos provenientes do Vale dos Jequitinhonha, em Minas Gerais, chegou em 25 de abril.
Eles alegam que no ato da contratação, os agenciadores afirmaram que o contrato de trabalho poderia ser rescindido em seis meses, sem multas. Esse prazo, segundo os cortadores, expirou na última semana. “Fomos enganados. Quando falamos com o fiscal que queríamos rescindir o contrato para voltar para as nossas terras, ele disse que teríamos que trabalhar até o final da safra”, disse Antonio Admílson Silva Santos, 23.
Segundo os cortadores, as más condições de trabalho os impede de aguardar o final da safra. “O valor que a usina paga pelo metro de cana cortado é muito baixo”, disse José Osvaldo Ramos, 32. Segundo ele, o Grupo Cosan paga R$ 0,06 por metro de cana-de-açúcar cortado. Um trabalhador de alta produtividade, segundo os trabalhadores, corta cerca de 250 metros de cana ao dia. De acordo com os dados de Ramos, o Jornal de Piracicaba calculou que nessas condições, esse cortador receberia cerca de R$ 450 ao mês. “Mas isso é um cortador bom. Tem muita gente aqui que recebe menos de um salário mínimo”, disse Leandro Martins Rodrigues, 22.
De acordo com o grupo, o contrato prevê que eles cortem cinco “ruas” de cana. “Estamos cortando sete e essas duas ruas a mais não estamos recebendo”, disse Santos. De acordo com os trabalhadores, esse acréscimo de produção significaria um aumento de salário da ordem de 40%.
Outras reclamações recorrentes são maus-tratos por parte dos fiscais, falta de assistência médica. “Cada vez que a gente precisa de consulta médica tem pagar R$ 15”, disse Santos. Segundo os trabalhadores, no alojamento teria um homem que está trabalhando com o pé torcido há meses e outro que aparenta problemas psiquiátricos. “Os fiscais não aceitam atestado médico. Quem precisa ir ao médico perde o dia”, disse Rodrigues.
A alimentação é um outro problema ressaltado pelo grupo. “A comida enviada por uma empresa terceirizada já chega para gente azeda”, disse. Os trabalhadores ainda queixam-se do ágio no preço dos produtos comercializados num bar do alojamento. “Um maço de cigarro do Paraguai que na cidade custa R$ 0,50 é vendido aqui por R$ 2”, disse Santos.