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progesso - samedi 3 juillet 2010

Setores organizados da sociedade douradense começam a mobilizar forças para fazer com que a Câmara Municipal aprove uma nova lei revogando a lei que autoriza a queimada da palha da cana-de-açúcar no município.

A medida restabeleceria a lei que foi aprovada pela própria Câmara Municipal, por iniciativa do então vereador Elias Ishy (PT), que impedia a queimada em solo douradense, ou seja, a sociedade organizada está tendo que pressionar os vereadores para que os nobres representantes do povo corrijam um erro inadmissível, uma vez que a autorização para queimadas ataca ferozmente não apenas o meio ambiente, mas, também, a saúde de crianças e idosos. Ademais, a forma sorrateira como a lei foi proposta, votada e aprovada, sem participação da sociedade no debate, mostra que os vereadores tinham consciência do erro que estavam cometendo ao permitir que as usinas instaladas em Dourados substituíssem a colheita mecanizada pela manual, com a queimada sendo usada como instrumento para facilitar o trabalho dos braçais.
A justificativa do vereador Paulo Henrique Bambu, autor da lei que agride o meio ambiente e, de quebra, toda população douradense, é que as usinas não estão encontrando máquinas para colheita da cana-de-açúcar, ou seja, para o vereador a ausência de condições de mecanizar a colheita justificaria a autorização para violar os direitos que as pessoas têm de respirar um ar melhor. É claro que impedir a queimada da palha não significa a solução para todos os problemas que são gerados pelas indústrias sucroalcooleiras, mas, com certeza, parte dos impactos negativos poderá ser evitada com a colheita mecanizada da cana-de-açúcar e se as usinas não têm como adquirir essas máquinas, mesmo que seja por falta de oferta no mercado, que encontrem outra forma de fazer a colheita sem poluir o meio ambiente. Mesmo porque, as queimadas trazem problemas como o trabalho temporário, degradante, insalubre e de baixa remuneração ; os problemas respiratórios provocados pela fuligem, bem como a emissão de substâncias cancerígenas que acabam inaladas pelos bóia-frias que trabalham na colheita.
Ademais, num momento em que todo o mundo discute meios de conter o aquecimento do planeta e a redução do buraco na camada de ozônio, o projeto que liberou a queimada da palha da cana-de-açúcar em Dourados acaba sendo um desserviço ao próprio planeta. Cabe enfatizar que Estados mais evoluídos, com destaque para São Paulo, já aprovaram leis severas que regulamentam a atividade sucroalcooleira, motivo pelo qual um grande número de usineiros acabou migrando para o Mato Grosso do Sul onde a terra é fértil, a mão-de-obra é barata e o governo, que deveria endurecer a legislação para preservar o meio ambiente, ainda concede todo tipo de incentivo fiscal para atrair as usinas de álcool e açúcar. É preciso alertar que a ocupação desordenada de usinas e as conseqüentes queimadas de canaviais comprometem a vida e a sobrevivência de todas as espécies, tornando solos férteis em zonas mortas e improdutivas. A atividade das usinas que não adotam a colheita mecanizada prejudica as aves que são as predadoras naturais de muitas pragas e que não terão mais os refúgios nas árvores para seus ninhos.
Os problemas causados pelas queimadas das palhas são muitos, mesmo porque sem a mecanização da safra a exploração da cana de açúcar vira um processo de autofagia, que devora tudo em torno de si, acaba com o húmus que é a matéria orgânica do solo em decomposição ; impossibilita a procriação de animais que não encontrarão mais alimentos. É fato que o álcool é uma energia renovável e menos poluidora que os combustíveis fósseis, mas também é verdade que para produzir o álcool que move os veículos também se pratica toda forma de agressão ao meio ambiente com poluição do solo, dos mananciais e, sobretudo, do ar. Por tudo isso, os vereadores que compõem a Câmara Municipal de Dourados têm a obrigação de ouvir os setores da sociedade organizada e colocar em votação, o mais breve possível, um projeto de lei capaz de revogar a lei que liberou a queimada da palha da cana-de-açúcar em todo município. Não será nenhuma favor, mas sim obrigação com o eleitor, com o contribuinte e, sobretudo, com o meio ambiente.