Migrante denuncia mortes nos canaviais por biocornbustíveis Actualité News Actualidad
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Pastoral do Migrante - quarta-feira 22 de outubro de 2008

As condições precírias e a exploração desumana do trabalho dos cortadores de cana—de—açúcar no Brasil são identificadas, descritas e denunciadas pelo Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM), pastoral social da igreja, na publicação “Agrocomhustíveis: solução? — a vida por um fio no eito dos canaviais”. O lançamentoocorreu na sexta-feira, dia 17, na Secretaria Estadual de Justiça de São Paulo (centro).

Face emblemática do proCeSSO degradante de produção revelada pela publicação são as mortes no corte da cana. No interior paulista, o SPM conseguiu identificar três casos em 2004, oito em 2005, cinco em 2006, quatro em 2007 e um até julho deste ano — um homem de 53 anos sofreu parada cardíaca enquanto trabalhava, sendo que uma semana antes já tivera um ataque do coração no canavial.
Nos anos 1980, o tralhador cortava em média seis toneladas de cana ao dia, enqunto que na década atual são 12. “E uma produtividade imposta. Se não cortar, perde o emprego. Esse trabalho acaba, muitas vezes, excedendo o próprio limite físico da pessoa”, disse a socióloga Maria Aparecida de Moraes Silva, pesquisadora sobre a lida nos canaviais e co—autora da publicação, -atribuindo as mortes ao excesso de esforço manual.
Para o também sociólogo, pesquisador e autor da publicação Francisco Alvos, as mortes nos canaviais se devem, além do próprio trabalho “extremamente penoso”, ao modo de remuneração pelo qual os cortadores, por só saberem quanto irão receber após realizada a tarefa, se submetem a esgotamento físico por melhor ganho. “O esforço realizado pelos trabalhadores é decorrente de mima forma de pagamento por produção um tanto bizarra.”
Professor da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos, SP), Alves disse, porém, que O primeiro fator que resulta nos casos fatais é o agronegócio que força lavradores a abandonar suas plantações e mitrar para regiões em que não dispoem de moradias e alimentação adequadas e cumprem extenuante trabalho “sem capacidade de barganha, reivindicação” de melhores condições. “São expulsos da agricultura familiar pelo próprio agronegócio.”
Em texto para a publicação, intitulado “Agronegócio: a reinvenção da colônia’, Aparecida de Moraes, professora-colaboradora da UFSCar, associa o agravamento do precáno processo de industrialização nas usinas à “ideologia” da nova forma de produzir na era da globalização como solução econômica para os países pobres, particularmente o agronegócio do etanol no Brasil, cuja “face escondida” revelou.
“A produção do etanol causa a degradação social principalmente dos trabalhadores:
e ambiental, cm virtude da (queinla da palha da cana, da poluição das águas e dos lençóis freáticos, da contaminação do aqüífero Guarani [uma das principais reservas subterrâneas de água doce do planeta, no sudoeste do Brasil. )o ponto de vista social e ambiental, não é sustentável”, afirmou a professora, que critica o presidente Lula por viajar pelo mundo tentando vender algo danoso. “É um mascate do etanol.”
“Biocombustível” sugeriria, conforme o termo, “combustível da vida”, mas, pelas formas sociais de produção que “agridem o meio ambiente, aviltam a condição humana ferindo os direitos dos tra balhadores e dão sentido de morte a muitos deles”, “não passa de um eufemismo, cujo marketing interessa apenas à usineiros, governos, ambos descomprometidos com a equidade social e a garantia do direito mais elementar da humanidade: a vida”, escreve a freira Inês Facioli, do SPM.
Presente no lançamento, dom Demétrio Valentini, bispo de Jales (SP) e presidente do SPM, disse que - a publicação, cujo prefácio assina, contribui para “alertar” para a realidade das violações dos direitos dos trabalhadores recrutados para gerar combustível a partir da cana e “apontar os caminhos, inelusive cobrando, para que haja uma presença maior do Estado, fiscalizando”.