Além de bancarem do próprio bolso o aluguel, grupo de cearenses convivia em ambiente infestado por ratos e baratas. Por reivindicarem melhorias no preço da cana cortada, parte dos migrantes foram sumariamente demitidos pela empresa sucroalcooleira
Presidente Prudente-SP - Trabalhadores rurais do setor de corte de cana trazidos da cidade de Pedra Branca, no Ceará, para trabalhar na Usina Santa Fany, no município de Regente Feijó, região do Oeste Paulista, vivem em situação precária nas pequenas casas que lhes servem de alojamento.
Eles denunciam os locais por não oferecerem condições de higiene e o mínimo de conforto.De acordo com Adalberto de Carvalho, cortador de cana, representantes da usina foram até Pedra Branca para contratar homens para atuar no corte de cana-de-açúcar. No dia 3 de junho foi feito o exame de 41 novos contratados pela empresa. Dois dias depois, os trabalhadores embarcaram em um ônibus fretado por eles e partiram do município situado a 261km da capital Fortaleza, para enfrentar os três dias de viagem até chegaram a Regente Feijó. Na nova cidade, foram separados em grupos para cinco casas-alojamento.
Foi nesse momento que as promessas ouvidas no Ceará se contrastaram com a realidade oferecida pelos usineiros no interior paulista. Em uma das casas, por exemplo, a situação é de extrema precariedade, remetendo quem a visita a uma versão surreal de senzala em pleno século XXI. De madeira, com três quartos pequenos, um banheiro e uma cozinha, na casa moram 14 pessoas que dividem o aluguel no valor de R$ 400,00. Os quartos possuem beliches em más condições, as paredes com buracos e não tem guarda-roupas.
As roupas são penduradas em varais improvisados por cordas dentro dos quartos.A casa também não possui despensa para guardar as comidas, não tem mesa e cadeiras para fazer refeições. Os alimentos são armazenados sobre pedaços de madeiras escoradas por tijolo a poucos centímetros do chão da cozinha. O banheiro também apresenta más condições de uso."Eles [representantes da usina] fizeram a promessa que uma mulher ia limpar a casa, mas nunca ninguém apareceu nenhum dia. Quando aqui chegamos, tivemos que ficar três dias no escuro, pois sequer tinha lâmpadas nos bicos de luz", diz Adalberto.
“Durante essas semanas que aqui estivemos fomos obrigados a conviver com ratos e baratas na casa. "Isso é desumano. Saímos de casa com a esperança de encontrar uma vida melhor, mas chegamos aqui e somos obrigados a passar por essa situação", desabafa o cortador de cana.No período de um mês, oito trabalhadores voltaram para sua cidade de origem alegando não ter condições de trabalhar na empresa.Na última quinta-feira, 10/07, os trabalhadores migrantes se reuniram e reivindicaram junto a diretoria da usina melhorias no preço pago pelo corte da cana que, segundo eles, estava bem abaixo do valor combinado no momento da contratação.
O resultado da reunião não saiu como o planejado. Além de não conseguirem o reajuste, o grupo ainda recebeu ao final do dia o aviso prévio de demissão. O martírio dos cortadores de cana pedrabranquenses não terminou por aí. Após a demissão ainda tiveram a conta no mercado cortada, impedindo de poderem pegar alimentos ou produtos para higiene pessoal.Dos 33 trabalhadores rurais, oito fizeram um acordo com a empresa e não foram demitidos. Já os 25 restantes já estão com as malas prontas para retornarem à cidade de origem.
O diretor da Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo (Feraesp/CUT), Rubens Germano, esteve presente nas casas dos trabalhadores e constatou muitas irregularidades, não só nos alojamentos, mas também no cumprimento da lei, que a empresa não estaria seguindo como determinado.Segundo Germano, a denúncia foi feita através de pesquisadores do Centro de Direitos Humanos, que constataram irregularidades com os trabalhadores da usina. Rubens comenta que a empresa contratante deve arcar com todas as despesas desde a saída da terra natal, coisa que não aconteceu com os migrantes."Quem contrata mão-de-obra proveniente de outras localidades, ou seja, mão-de-obra de migrantes, tem a obrigação de fornecer uma moradia em condições satisfatórias dentro do padrão permitido.
Também tem por obrigação arcar com as despesas de água, energia elétrica, aluguel da casa e, principalmente, servir alimentação necessária para a sobrevivência desses homens. Tudo isso a usina não está cumprindo segundo os trabalhadores e pelo o que constatei nas casas-alojamento", disse Germano.“Estaremos formulando uma denúncia ao Ministério Público Estadual ao Ministério do Trabalho para que possam ser tomadas atitudes a respeito da situação”, informa o sindicalista, que também já está mapeando alojamentos de trabalhadores migrantes provenientes dos Estados de Sergipe e Bahia que também estariam prestando serviços à usina.
Segundo representantes da usina, nesta terça-feira, 15/07, esta programado para se fazer o acerto com os cortadores de cana demitidos, pagando o aviso prévio e todas as despesas da viagem de volta até Pedra Branca, no Ceará.