Odebrecht escolhe Senai de MS para qualificar angolanos Actualité News Actualidad
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MS Noticias - sexta-feira 11 de setembro de 2009

O Grupo Odebrecht escolheu o Senai de Mato Grosso do Sul para qualificar 61 técnicos de Angola para atuarem na usina de açúcar e álcool que está sendo implantada na província de Malanje, a cerca de 400 quilômetros da capital Luanda. Pertencente à Biocom (Companhia de Bioenergia de Angola), braço angolano do Grupo, a usina tem como meta produzir, a partir do próximo ano, 60 mil toneladas de açúcar e 50 mil metros cúbicos de álcool, além de atuar na co-geração de 140 MW (MegaWatts) de energia elétrica.

Para alcançar essa excelência de produção, o Grupo Odebrecht acertou parceria com o Senai de Dourados, que já iniciou nesta semana, por meio da Agência de Formação Profissional de Deodápolis, a capacitação desses profissionais angolanos. De acordo com o supervisor técnico do Senai, Thiago Prates, o curso de Operador Industrial de Fabricação de Açúcar e Álcool e co-geração de Energia Elétrica teve início pelo conteúdo das NRs (Normas Regulamentadoras), do Ministério do Trabalho e Emprego, que está ministrado na Usina Eldorado, que também pertence ao Grupo Odebrecht e está localizada no município de Deodápolis.

“Os técnicos foram divididos em seis grupos e aprenderam sobre segurança do trabalho nos conteúdos das NRs, cada um na sua área de atuação. Já nesta semana, eles iniciaram os outros conteúdos práticos e teóricos do curso”, explicou Thiago Prates, acrescentando que os técnicos foram trazidos ao Brasil pelo Grupo Odebrecht e a previsão é que o curso técnico seja concluído até o dia 19 de dezembro deste ano.

Com carga horária total de 624 horas-aulas, o curso contempla o conteúdo com aulas teóricas que serão ministradas na Agência de Formação Profissional do Senai em Deodápolis e as aulas práticas nas dependências da ETH Bioenergia (Usina Eldorado). “Após as aulas sobre as NRs, os técnicos farão os três módulos previstos no curso”, explicou o supervisor técnico do Senai em Deodápolis.

Alunos

Casada e mãe de dois filhos, a angolana Esperança Domingos Filipi deixou a família em Melanje e está no Brasil em busca de qualificação e conhecimentos que vão garantir um novo emprego e novas perspectivas financeiras. “A guerra trouxe muitos prejuízos ao nosso país e causou muito sofrimento, mas agora estamos todos unidos para esquecer esses longos anos e investir num futuro com emprego garantido crescimento para todo o país”, pontuou.

Aos 24 anos, Geraldo Dala também se considera um privilegiado, pois, enquanto muitos angolanos ainda padecem com os transtornos impostos pelos conflitos e mal conseguirão se alfabetizar, ele está tendo a oportunidade de conhecer novas culturas e adquirir qualificação. “A falta de infra-estrutura que a guerra impôs ao nosso país precisa ser enfrentada com coragem por nós, que estamos tendo esta oportunidade. Mas assim como eu, todo o nosso grupo está disposto a dedicar nossos esforços para fazer de Angola uma grande nação, conhecida não só pela guerra e pela exploração de diamantes e petróleo, mas principalmente pela determinação e realizações da sua gente”, disse.

Pavlov Dias Neto, que também é um dos 61 técnicos angolanos que veio ao Brasil, conta que deixou a família e dois filhos, mas está muito satisfeito por poder aprender uma profissão num país cheio de riquezas naturais e culturais. “O brasileiro é muito simpático e aqui todos nos receberam muito bem. É imensurável a satisfação de estar aqui, poder aprender, conhecer e levar um pouquinho desta cultura, além de ter um certificado do Senai. Com certeza isso fará grande diferença na minha formação e no futuro que poderei oferecer para toda a minha família. Junto com este grupo queremos garantir que não precisaremos mais importar produtos primários como o açúcar”, analisou.

Demanda

Segundo Ariane Sirugi, supervisora de Educação e Tecnologia do Senai de Dourados, o curso foi especialmente desenvolvido para atender o setor sucroenergético, tendo adaptações para atender a necessidade da ETH Bioenergia. “Tivemos a preocupação de atender as necessidades da empresa, mas com foco na qualidade e seguindo rigidamente os parâmetros de educação do Senai”, ponderou a técnica.

O supervisor Técnico da Área de Química Industrial e Sucroalcooleiro do Senai de Dourados, Clauber Dalmas Rodrigues, explica que os alunos serão preparados a operar processos de produção para fabricação de açúcar e álcool. “Neste sentido o Senai fornece a capacitação profissional e também as normas de segurança do trabalho”, disse.

Ele complementa que a integração entre o Senai e os técnicos da ETH Bioenergia possibilita uma maior vivência das situações reais de produção aos alunos, o que favorece sua formação. Para o gerente do Senai de Dourados, Gilberto Evídio Schaedler, a parceria entre a instituição e o Grupo Odebrecht é resultado do esforço conjunto.

“Representam o esforço de ambas as partes em profissionalizar pessoas, elevando a qualidade de vida e também garantindo a empresa a melhor formação dos trabalhadores. É uma parceria que com certeza trará resultados significativos em ganho de produção, consolidando assim, o compromisso do Senai em oferecer soluções personalizadas às demandas das indústrias”, pontuou Gilberto Schaedler.

Contexto

De acordo com o superintendente de Desenvolvimento de Pessoas da ETH Bioenergia, Elias do Prado, a maior parte dos equipamentos já está sendo instalada na unidade no Continente Africano e a meta é iniciar a produção a partir do próximo ano. Além disso, a Biocom deve ampliar a área plantada chegando a 24 mil hectares de cana-de-açúcar para que a usina possa operar próximo de sua capacidade total.

Apesar de todo o potencial de exportação do etanol, nesse primeiro momento a intenção é atender basicamente o mercado interno. Destroçada por uma guerra civil de quase três décadas, Angola importa absolutamente tudo que consome, inclusive o açúcar, commodity da qual já foi uma grande exportadora. “Em 1940 a Angola já chegou a exportar perto de 4 bilhões de toneladas de açúcar, mas agora há mercado de sobra, nesse momento não pensamos em exportar nem o açúcar nem o etanol que será produzido por lá”, explicou Elias do Prado.

Ele acrescenta que ao fim de quatro meses os angolanos devem estar preparados para assumir as funções na usina e depois repassar o que aprenderam para outros colaboradores. “Queremos que nossos colaboradores assumam os processos industriais com maior autonomia, multiqualificados e com conhecimentos técnicos gerais”, pontuou.

Consumo

Com a presença do grupo de angolanos, a cidade de Deodápolis está movimentada e, segundo o prefeito Manoel Martins, a economia também ficou aquecida com os visitantes africanos. “Deodápolis vive dias de euforia com os nossos visitantes. Eles são animados e já demonstraram simpatia com o nosso povo”, declarou.

Manoel Martins acrescenta que as farmácias, os bancos, os restaurantes e as lojas de calçados e confecções estão movimentados e otimistas com as vendas. “As vendas do nosso comércio já cresceram e estamos prevendo a possibilidade de que elas continuem em expansão nos próximos meses”, pontuou.

De acordo com ele, a projeção de Deodápolis no Estado e até no País tem sido positiva desde a instalação da Agência de Formação Profissional do Senai. “A instalação do Senai garantiu muitas coisas positivas para o município e agora que estamos formando profissionais para outros países isso com certeza vai trazer ainda mais benefícios e possibilidades de investimentos aqui. É uma parceira que está rendendo bons frutos”, afirmou.

O pedreiro Evaldo Cordeiro de Lima conta que a presença dos angolanos deixou a cidade mais animada e o aumento do consumo está deixando os moradores propensos a consumirem também. “As lanchonetes estão movimentadas e o centro da cidade também, incentivando as pessoas a saírem mais para se confraternizar e gastar. Com isso, o dinheiro circula e acaba criando também oportunidades de trabalho para mim, como pequenas reformas”, previu.

A comerciante Elidia dos Santos Mendes, dona do restaurante no distrito de Ipezal onde os angolanos fazem as refeições, é uma das mais animadas. Ela conta que há 20 anos atua no ramo e antes servia cerca de 20 refeições na hora do almoço, mas que agora está servindo cerca de 200 refeições por dia. “Nossa, nem tenho palavras pra agradecer ao Senai e a direção da usina que trouxeram essas pessoas para cá. Tudo estava meio parado e agora temos trabalhado dia e noite. Antes tinha duas colaboradoras e agora tenho seis”, revelou.