Brasil de fato - quarta-feira 11 de abril de 2007
A vinda do presidente Bush ao Brasil, de certa forma, está em sintonia com os esforços do governo brasileiro de ampliar as exportações por meio do agronegócio.
Não é de hoje que diplomatas tentam reduzir as barreiras na Organização Mundial do Comércio (OMC) para vender o açúcar e o álcool. Estados Unidos e Brasil possuem as duas maiores empresas produtoras de álcool: ADM e Copersucar, respectivamente. Especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato denunciam o custo social e ambiental da expansão da monocultura de cana-de-açúcar – algo que, aliás, remete ao processo colonizatório do país. “O impacto será grande. Estão previstas dezenas de usinas, com destaque para a porção oeste do Estado de São Paulo, especialmente no Pontal do Paranapanema, onde as terras são baratas pelo fato de serem griladas”, avalia o geógrafo e coordenador do Grupo de Trabalho Desenvolvimento Rural do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso), Bernardo Mançano Fernandes.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografi a e Estatística (IBGE) apontam que, entre os anos 2005 e 2006, a área plantada passou de 5,62 para 7,04 milhões de hectares, e a produção, de 420 para 460 toneladas de cana-de-açúcar. Segundo a União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica), a produção da planta aumentará cerca de 50% nos próximos seis anos.
Até 2012, devem ser construídas mais de 70 usinas por todo o Brasil, sendo a maioria em São Paulo. Atualmente, existem 363 cadastradas no país. São Paulo aparece com 170, seguido do Paraná, com 29 e Pernambuco e Alagoas, que contabilizam 26 usinas cada.
“Historicamente, a produção de açúcar está associada ao trabalho escravo de indígenas e negros”, afirma Plácido Júnior, coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Pernambuco. Segundo dados da Comissão Pastoral do Migrante (CPM), desde 2004, foram 15 óbitos, só no Estado de São Paulo, a maioria de migrantes de Minas Gerais e do Nordeste, mortes quase todas relacionadas ao excesso de trabalho em usinas e canaviais.
A monocultura e a manutenção do poder dos grandes empresários do setor em detrimento da agricultura familiar têm tudo para crescer. “Sem dúvida, com a territorialização da cana, ocorrerá uma intensificação da concentração de terras. Isso vai significar a expropriação de milhares de pequenas propriedades”, aponta o geógrafo. Para Mançano, o poder do agronegócio da cana reúne as vantagens necessárias para sua expansão: cria as regras e controla as políticas da produção.
O fato é que a força política dos empresários sucroalcooleiros influencia os governos. Segundo ele, a expropriação das pequenas propriedades tende a ser interpretada como uma etapa natural das transformações da agricultura. “É preciso repensar esse processo, construir leituras que demonstrem as condições expropriatórias e intensamente destrutivas do agronegócio da cana”, afirma o geógrafo.
Já os impactos ao meio ambiente estão sendo ignorados pelos que defendem a substituição do petróleo pelo álcool combustível como medida para reduzir o aquecimento global. Um dos processos de produção mais comuns é a queima da palha do canavial, para facilitar o corte manual e aumentar a produtividade do cortador de cana.
Essa prática reduz custos de transporte e aumenta a eficiência das moendas nas usinas. No entanto, a queima libera gás carbônico, ozônio, gases de nitrogênio e de enxofre (responsáveis pelas chuvas ácidas), e provoca perdas significativas de nutrientes para as plantas, além de facilitar o aparecimento de ervas daninhas e da erosão. Como opção às queimadas – responsáveis por boa parte das mortes dos cortadores por meio da inalação de gases cancerígenos –, a mecanização pode ser extremamente prejudicial ao solo, pois o comprime, não permitindo a entrada de oxigênio.
Além disso, como toda a monocultura, a plantação de cana em larga escala diminui a diversidade biológica e empobrece o solo.