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Pastoral do Migrante - quarta-feira 27 de maio de 2009

Oficina pioneira em Piracicaba Realizado no Sindicato dos Bancários, encontro discutiu saídas para os problemas nos canaviais
Piracicaba sediou ontem (27), com total pioneirismo, na sede do Sindicato dos Bancários, uma das oito oficinas que serão realizadas, até junho, em várias cidades de vocação canavieira, sobre as relações do trabalho no campo.

Durante todo o dia, dezenas de pessoas, entre professores e estudantes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), líderes do Centro de Estudos Rurais (Ceres), representantes do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Piracicaba, do Conselho das Entidades Sindicais (Conespi), sob a coordenação do vereador José Antônio Fernandes Paiva, entre outras entidades e segmentos, discutiram, de forma prática, como resolver o problema crônico do trabalhador que padece nos canaviais.

Também chamado de bóia-fria, ele corta até 10 toneladas de cana ao dia, ou 10 mil quilos do produto, quantidade impressionante que acaba provocando doenças graves, esgotamento físico e até mortes, recebe uma diária irrisória que varia de R$ 16,00 a R$ 20,00.

É muito pouco perto de tanto que é realizado. Em meio ao encontro, considerado de impacto por reunir tantos experts, foi consolidada a proposta, que tende a ganhar corpo ainda mais no País, de acabar com o pagamento por produção e elevar o piso salarial da categoria.

Do teto de R$ 20,00, o ganho, por cortador, que não receberia mais pela produção, seria fixado entre R$ 50,00 a R$ 60,00. A resistência do setor patronal identificada em princípio, poderia ser quebrada com a união de organismos e instituições. "O encontro foi um marco para Piracicaba", disse Paiva. Assessores do vereador Carlinhos da Balbo (PPS) também participaram dos debates.

GRAVE. Doutorando em Sociologia e membro do Ceres, mantido pela Unicamp, José Carlos Alves Pereira falou à Gazeta e revelou números importantes, embora pouco positivos. Para se ter uma ideia, por conta de toda a falta de estrutura, entre as quais a ausência de colchões nos alojamentos e até o uso de entorpecentes consumidos por quem acha que se mantendo acordado até mais tarde poderá produzir mais, e, assim, receber um valor superior, os óbitos no campo cresceram muito.

De 2003 a 2008, foram registradas 22 mortes no País. A 23ª vítima foi identificada há poucos dias, num canavial localizado na Bahia. A proposta, também defendida pelo professor da UFRJ, José Roberto Novaes, tem um sentido macro.

Alves Pereira explica que eliminando o custo por produção e especificando um piso, os trabalhadores rurais teriam mais chances de lutar por mudanças. "Eles teriam mais peso para não se submeter ao esgotamento e tampouco a pressões de usineiros. A resposta negativa dos empresários poderia reduzir a oferta de mão-de-obra barata e, consequentemente, problemas sérios, tais quais casos de semi-escravidão", ressalta.

O ganho maior tenderia a reduzir, ainda que não extinguir, entretanto, a migração para campos das Regiões Sul e Sudeste. Dados apurados pela Pastoral do Migrante, ainda segundo o líder da Ceres, indicam que na safra de 2009, cerca de 65 mil pessoas, a grande maioria homens, saíram de suas casas, nos Estados do Piauí, Minas Gerais, Maranhão, Paraíba, Pernambuco e até da Bolívia, para se estabeleceram, ainda que temporariamente, na região de Ribeirão Preto.

NÚMERO

10 toneladas ao dia foi o valor do corte, por trabalhador, em 2008.

Realidade nua e crua

Na região de Piracicaba, o número mais recente contabilizado pela Pastoral é de 2008. Ano passado, vieram 15 mil trabalhadores. Ao sugerir o piso maior, as entidades acadêmicas, de classe e sindicais propõem que sejam discutidas ações a ser aplicadas nos municípios de origem dos trabalhadores.

"Tendo condições de permanecer em suas cidades, atuando em condições dignas e de respeito, essas pessoas deixariam de viajar milhares de quilômetros rumo a situações de insalubridade. Com pouco dinheiro, está comprovado que não há como bancar custos básicos, a exemplo do aluguel, sem contar despesas com alimentação e até as destinadas a parentes, que ficam no aguardo de parte da remuneração dos arrimos de família.

Maior produtor mundial de açúcar e álcool, o Brasil opera com 400 usinas e destilarias e 70 mil fornecedores de cana, gerando um milhão de empregos diretos, numa imensa área de 7,8 milhões de hectares de terra (cada hectare corresponde a 10 mil metros quadrados de terreno). Se em 1970 cada trabalhador cortava 3,5 toneladas de cana por dia, em 2008 foi preciso cortar quase três vezes mais.