Setor sucroalcooleiro lidera ranking de trabalhadores retirados da 'escravidão' no país Actualité News Actualidad
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Pastoral do Migrante - quarta-feira 21 de janeiro de 2009

O setor sucroalcooleiro lidera o ranking de 'escravos' libertados pelo governo federal em todo o país em 2008. No total, 2.553 pessoas saíram de condições de trabalho equivalentes à escravidão no setor durante o ano passado. Isso equivale a 49% do total de 5.224 trabalhadores retirados em 2008. A pecuária ocupa o segundo lugar no ranking, com 1.026 libertos (20% do total).

Os dados, levantados pela Comissão Pastoral da Terra, foram divulgados hoje em estudo da ONG Repórter Brasil sobre as condições do setor sucroalcooleiro no país.
Marcel Gomes, coordenador da pesquisa, diz que o número reflete a grande quantidade de trabalhadores escravos encontrados em cada lugar em que há produção extensiva de cana.

Casos de trabalho escravo em 2008 no Brasil

AtividadeDenunciadosFiscalizadosEnvolvidosLiberados
Desmatamento7 - 2%7 - 3%99 - 1%83 - 2%
Pecuária137 - 48%85 - 40%1.740 - 25%1.026 - 20%
Reflorestamento19 - 7%18 - 8%264 - 4%248 - 5%
Extrativismo5 - 2%5 - 2%68 - 1%49 - 1%
Cana19 - 7%19 - 9%2.553 - 36%2.553 - 49%
Outras
lavouras
35 - 12%30 - 14%876 - 12%720 - 14%
Carvão48 - 17%38 - 18%1.252 - 18%410 - 8%
Outros e
não informado
14 - 5%12 - 6%201 - 3%155 - 3%
TOTAL2842147.0535.244
  • Elaboração: Comissão Pastoral da Terra (CPT), até 31/12/2008
O estudo aponta que o número de casos denunciados na pecuária é maior do que na cana. Porém, como a produção neste setor costuma ser mais intensiva, a quantidade de libertos tende a ser menor em cada apreensão feita.

2008 trouxe piora para os trabalhadores
A pesquisa mostra uma piora na condição dos trabalhadores do setor da cana em 2008. No ano passado, o aumento dado aos trabalhadores foi menor que a inflação no período.

Gomes cita São Paulo como exemplo dessa piora. No Estado, os trabalhadores tiveram um aumento médio de 7 pontos percentuais no salário. A inflação, porém, foi de 16,1%. Desta forma, o trabalhador teria o seu poder de compra reduzido.

O resultado de 2008 quebra uma série de sete anos em que os trabalhadores tiveram ganhos reais no salário. Segundo o pesquisador, isso reflete a postura das empresas diante da crise e da baixa do preço do álcool e do açúcar.

"A corda estourou do lado mais fraco. No momento de euforia, as usinas estavam construindo. Na dificuldade, quem paga o pato é o trabalhador que ganha um reajuste insuficiente para se sustentar", diz Gomes.

Segundo o estudo, também houve a diminuição relativa do valor pago aos trabalhadores por cana cortada. Desde 2000, o preço dela subiu quase doze pontos percentuais. O preço pago subiu somente 9,8%.

São Paulo tem condições "menos piores"
Em São Paulo, mais de 90% dos trabalhadores do setor tem carteira assinada. Segundo Gomes, esse é o resultado "menos pior" entre os Estados.

"Em São Paulo há sindicatos mais fortes, mais fiscalização, sociedades civis mais organizadas. Conforme você se afasta da mancha produtiva de São Paulo, a situação é mais inóspita", diz ele.

Segundo ele, em São Paulo ainda existem muitos problemas como a falta de respeito ao direito de greves, em que trabalhadores são muitas vezes demitidos sem justa causa. No restante do país, ainda falta uma organização sindical e uma fiscalização maior.

O pesquisador defende, além de maior fiscalização e de mais iniciativas dos trabalhadores, uma consciência maior por parte das empresas compradoras de cana.

"A BR, a Ipiringa, a Esso... todas elas deviam fazer exigências para os trabalhadores em termos de efeito e lei", diz ele. Gomes lembra do pacto contra o trabalho escravo, em que várias empresas assinaram um termo de não comprar produtos de fornecedores ligados à prática.

Amazônia foi desmatada
Além dos problemas trabalhistas, o relatório também mostra uma degradação ambiental causada pela produção da cana. A área do plantio de cana cresceu 23,5% por cento nos Estados que tem área da Amazônia.

"Durante 2008 inteiro o governo ficou falando que ia fazer o zoneamento ecológico e que era para todo mundo ficar tranquilo. O problema é que o zoneamento ainda não saiu. Isso leva anos de espera para surtir efeito", critica Gomes.