Na frente da usina Cerp, cortadores de cana mostram os cheques cruzados que receberam da empresa no acerto de contas
Cerca de 270 trabalhadores rurais da Cerp (Companhia Energética de Ribeirão Preto), a antiga Galo Bravo, de Ribeirão, receberam o pagamento pela rescisão contratual do fim da safra com cheque cruzado, que não pode ser descontado, só depositado.
Eles protestaram ontem pela manhã na sede da empresa ao receber o "acerto" porque muitos não possuem conta em banco. A maioria é de migrantes do Piauí que se instaram em Morro Agudo.
"Como vou fazer para descontar? Se for no mercado fazer compras, o caixa não vai querer me voltar o troco de quase mil reais", disse o bóia-fria Josimar de Lira, 31, que esperava o dinheiro para comprar a passagem de volta para o interior do Piauí.
Segundo o Ministério Público do Trabalho, a prática de pagar com cheque cruzado é ilegal, com base na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). "O acerto deve ser feito em dinheiro ou depósito em conta. Para ser em cheque, precisa ser visado e não cruzado", disse o procurador do Trabalho José Maturana.
Segundo o procurador, esta prática é comum com produtores terceirizados e, muitas vezes, significa calote nos trabalhadores. "O povo vai para sua cidade e aí percebe que não tinha fundo. Poucos voltam para cobrar", disse.
Os trabalhadores reclamam também por só terem recebido o FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) de três dos sete meses trabalhados. O benefício só foi depositado de agosto a outubro, apesar do início da safra ter sido em abril.
"[São] Essas coisas que fazem a gente nem querer voltar mais. Ano que vem vou continuar como pedreiro na minha cidade [Inhúma, no Piauí] que eu ganho mais", disse Francivaldo dos Santos.
Segundo cortadores que trabalharam na Cerp também na safra de 2007, a empresa não depositou nada de FGTS no ano passado.
A Folha esteve na usina, mas foi informada de que nenhum diretor iria à sede, devido ao feriado da Consciência Negra.
O advogado Amauri César Oliveira Junior, indicado pela empresa para dar entrevista, não foi encontrado em casa e também não atendeu o celular -a reportagem ligou seis vezes e deixou recado.
Há dois meses cerca de 700 trabalhadores da Cerp cruzaram os braços para reivindicar pagamento do FGTS. À época, Oliveira Junior disse à reportagem que o problema seria resolvido no dia do acerto de contas.