A cana avança cada vez mais e carrega consigo um intrigante paradoxo social. De um lado, evidencia a força braçal, a sobrevivência e a superação de centenas de bóias-frias que cortam as estradas do interior paulista. De outro, revela a exploração, o controle político e a dominação.
Essa relação entre doce e amargo é o caminho percorrido pelos bailarinos do grupo Gestus, de Araraquara, para a criação de “Cortadores”, espetáculo dirigido por Mário Nascimento, que toma hoje o palco do Sesc (Serviço Social do Comércio).
A produção é um dos braços do “Microdanças Que Se Desfazem”, projeto que recorre à arte como mecanismo de engajamento político – a marca registrada do Gestus ao longo de seus 18 anos de trabalho ininterrupto.
“A arte da dança e do corpo é o meio que nós, artistas, temos para manifestar nossa crítica política e contribuir para a reflexão social”, argumenta Gilsamara Moura, diretora do grupo.
Os bailarinos acompanharam por três meses o trabalho de bóias-frias em canaviais. Entre histórias e movimentos, deram vida ao espetáculo, que estreou há um ano para uma platéia formada apenas por cortadores de cana. (Harlen Félix)