Violência contra canavieiros em Indiara Actualité News Actualidad
O açúcar através do mundo →

FETAEG - Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Goiás - quinta-feira 19 de outubro de 2006

No dia 17 de agosto de 2006, às 4 horas da manhã, os trabalhadores rurais de Indiara, que trabalham na Empresa DENUSA, chegaram na garagem da Empresa Itatur, na cidade de Indiara, que faz o transporte até a área do corte de cana no município de Jandaia.

Quando chegaram os primeiros trabalhadores também chegou uma viatura da Polícia Militar, a qual foi colocada dentro da garagem. Em seguida, chegaram mais três viaturas da PM, que não entraram para a garagem, mas foram colocadas em frente aos portões da mesma. Por volta das 5:00 horas os ônibus vazios tentaram sair, quando os trabalhadores pediram para que os ônibus não fossem retirados da garagem até que a Empresa viesse negociar as cláusulas da CCT que estavam sendo descumpridas. Os policiais responderam que eram pagos para vigiar a Empresa e que os ônibus sairiam. Disseram ainda que os trabalhadores não impediriam, como de fato os ônibus saíram. Neste momento, a polícia sacou as armas, empurrou os trabalhadores, bateu com cassetete em alguns e jogou spray de pimenta no rosto dos mesmos.

Os trabalhadores que tentaram negociar com a polícia foram espancados, dominados, algemados e levados para a cadeia. A violência aconteceu também dentro da Delegacia quando um soldado bateu em um trabalhador algemado e dominado. Em seguida, as viaturas que estavam em frente o portão saíram empurrando os trabalhadores e abrindo caminho para os ônibus, inclusive escoltaram os referidos veículos. Os trabalhadores foram para o último ponto. Quando lá chegaram, pouco tempo depois a polícia chegou posicionando as viaturas em frente aos trabalhadores, desceram com armas em punho e prenderam o trabalhador Ubiratan Carvalho Rios. Um dos soldados desafiou os trabalhadores a lhe enfrentar, dizendo-lhes que a família dele era grande, que podiam vir até 800 homens. As provocações da polícia militar continuaram, mas os trabalhadores não entraram nas provocações e recuaram, pois perceberam que a PM estava querendo briga.

Os ônibus que iam chegando recebiam a ordem da Polícia para ir direto para a roça, impedindo que os trabalhadores que chegavam de outros lugares descessem, forçando-os a ir para a roça. Muitos tentaram descer e foram impedidos e obrigados a ir trabalhar. 

Com a partida dos ônibus, os trabalhadores estavam saindo para Delegacia de Polícia porque seus companheiros estavam presos, quando chegou o deputado Luiz Cezar Bueno, que os aconselhou a não ir até lá, para evitar mais violência contra os trabalhadores e se dispôs a ir tirar o Waldemar e os outros. Por volta das 6:40 o deputado chegou com os trabalhadores que estavam presos.

Os trabalhadores disseram que a CCT está sendo descumprida por parte da Empresa e esta se nega a sentar para negociar. Os pontos de descumprimentos são:

1. A Empresa está perseguindo os trabalhadores que participaram do encontro de assalariados em Goiânia. Pelo menos na listagem dos trabalhadores demitidos estão presentes muitos que participaram do encontro.

2. A Empresa está denegrindo a atuação do Sindicato junto aos trabalhadores, dizendo que o Sindicato não vale nada na Empresa.

3. A Empresa não quer pagar pelo amontoamento da cana nem quer deixar cortar esteirado. O peso da cana e os exercícios que são feitos para fazer o amontoamento exigem muito do trabalhador e muitas vezes causa sérios danos na coluna e no braço, inclusive mais de 70 trabalhadores da Empresa estão no auxílio doença.

4. O preço da cana está sempre abaixo e quando os trabalhadores pedem para pesar a cana a Empresa nega, justificando que não tem caminhão para levar a cana até a balança.

5. A Empresa não está fornecendo a enxada, lima, mangote, boné e não estando repondo as botinas, estes últimos fazem parte dos IPIs. Teve um trabalhador que não levou a enxada, o fiscal não o deixou trabalhar, levando-o a perder o dia.

6. A Empresa não está pagando o alojamento para os trabalhadores que vem de outros Estados, conforme determina a CCT.

7. As passagens dos trabalhadores que vêm de outros Estados foram pagas pelos trabalhadores e não pela Empresa.

8. A Empresa chegou a pagar R$ 3,00 e R$ 5,00 por dia de trabalhador, quando a diária era de R$ 12,98.

9. O pagamento feito pela Empresa está acontecendo fora do horário, indo até as 14:00 do sábado.

10. A Empresa está punindo uma turma inteira por causa de alguns daquela turma que erraram. Se um errar todos pagam. Por exemplo: A empresa determinou que todos assinassem as orientações da NR 31, como 08 trabalhadores se recusaram a assinar, a Empresa penalizou todos os 48 trabalhadores a ir para a capina. Isto significou para a turma, deixar de ganhar no corte e trabalhar na capina pela diária, ou seja, ganharam menos.

11. A Empresa mantém convênio com uma só farmácia, obrigando todos a comprar nesta. Alguns trabalhadores pesquisaram e descobriram que os remédios estão mais caros que em outras no mercado.

12. A Empresa está obrigando os trabalhadores a deixar o atestado na farmácia e esta entrega o referido atestado para a Empresa.

13. Quando o trabalhador foi ao médico, comprou o remédio na farmácia conveniada, somente poderá trabalhar se mostrar ao fiscal o comprovante que entregou o atestado na farmácia.

14. A Empresa está condicionando o pagamento do atestado se tiver carimbado pela farmácia conveniada. Quando o trabalhador esquece de carimbar o atestado na farmácia conveniada é obrigado a voltar na mesma para carimbar o atestado se não quiser perder o dia.

15. A farmácia conveniada pela Empresa não fornece Nota Fiscal de compra para os trabalhadores, nem mesmo depois daquele estabelecimento receber o repasse feito pela Empresa. A farmácia fornece apenas um comprovante de compra para o trabalhador.

16. Teve caso recente em que o trabalhador estava passando mal, não tinha condições de serviço e não lhe foi permitido ir até a Enfermaria da Empresa, não o trouxeram para o hospital e ainda lhe deu advertência porque não conseguiu trabalhar.

17. A Empresa está exigindo que, em caso de acidente, duas testemunhas para afirmar que viu o acidentado se cortando ou se acidentando. Somente assim a Empresa aceita caracterizar a situação como acidente de trabalho.

A Empresa não está cumprindo com o Convencionado, quando os trabalhadores solicitaram abrir negociações para exigir o cumprimento destas irregularidades a Empresa DENUSA preferiu se articular com a polícia e procurou resolver o problema pela força. A Polícia usou de intimidação, prendendo, espancando, algemando e impondo medo nos trabalhadores. Isto não é a melhor forma de negociação entre patrão e empregados, não podemos voltar ao passado que tratava o trabalhador como bandido, ou como uma mera ferramenta. São vidas humanas! São pessoas que precisam do respeito, de dignidade e de cidadania.